Quando Unravel foi anunciado, em 2015, logo prendeu minha atenção pelo seu apelo visual único e por fazer parte de uma nova leva de jogos de plataforma, que buscavam revitalizar o gênero, feitos em sua maioria por estúdios independentes. Em Unravel, Yarny é um humanoidezinho feito de lã e segue por um cenário fotorrealista detalhadíssimo, com pequenos puzzles pelo caminho e uma história que se desenvolve ao fundo. A única limitação dele era se a lã acabasse, e para poder prosseguir deveria alcançar os novelos de lã para ganhar fôlego. Apesar de não ter sido perfeito e ser apenas para um jogador, Unravel foi um trabalho bem recebido do estúdio sueco Coldwood Interactive e publicado pela Eletronic Arts.

Então, quando Unravel Two foi anunciado e lançado em plena E3 2018, houve logo uma certa expectativa sobre o que esperar da sequência. Será que o título agrada? Confira agora nossa análise no Jornada Geek!

Paisagens, origens nórdicas e simbolismo

É fácil deixar-se encantar pelo visual de Unravel Two que – assim como seu predecessor – registra cenas do interior da Suécia, por onde está localizada a desenvolvedora do game. Cada quadro passa a impressão de ser uma fotografia em tilt-shift, aquela técnica utilizada para que tudo pareça feito em miniatura, e o ambiente entra e sai de foco à medida que se progride enquanto luzes e sombras parecem ter sido meticulosamente trabalhados pelos artistas.

À primeira vista, a ideia do novelo de lã pode até parecer inspirado em Kirby’s Epic Yarn (2010, Nintendo Wii). Entretanto, ao considerar as origens da Coldwood somando-as ao jeito com o qual Unravel Two conta sua história, fica claro que é uma referência às Nornas, entidades importantes da mitologia nórdica, representadas por três senhoras residentes de Asgard (sim, a mesma que vemos nos filmes da Marvel!) responsáveis por tricotar o destino dos deuses e das pessoas.

Unravel Two
Foto: Reprodução

O jogo chama suas fases de “capítulos” e, depois da introdução, Yarny chega a um farol e de lá avança por mais seis capítulos, cada um com a duração entre 20 e 40 minutos, sendo possível fechar o jogo em uma tarde. O farol, metáfora para aqueles que atravessam momentos difíceis e buscam sair de águas turbulentas, serve de hub principal e também leva a rotas alternativas para fases-desafio (falaremos mais adiante). Cada capítulo é ricamente ilustrado, mas não espere diversidade de ambientes e condições climáticas, pois, como disse, são cenas do interior da Suécia contando uma história que se desenvolve no curso de dois ou três dias.

Por falar em história, ela acontece ao fundo à medida que os Yarnys avançam pelo capítulo, o desenrolar de seus fios costuram a trama das pessoas, e somos um espectador no local, uma espécie de testemunha visual. Sua narrativa não é das mais ambiciosas, contada sem falas e apenas pelas ações de seus atores. Desta vez, duas crianças parecem fugir de um orfanato e das pessoas que as mantinham lá. Apesar de ter um tema pesado, pais não precisam se preocupar, pois é tratado com sensibilidade e muita subjetividade, deixando muito dessa interpretação em aberto. É interessante ver como elas somente alcançam seu destino se os Yarnys obtiverem sucesso.

Cooperação: sozinho ou acompanhado

Logo no início, Unravel Two introduz um segundo Yarny, o que altera a dinâmica do game: é possível jogar sozinho ou cooperativamente com mais uma pessoa. Novos quebra-cabeças mais complexos surgiram dessa mecânica com dois Yarnys, porém, aqueles sem amigos ou os que preferirem se aventurar no melhor estilo “lobo solitário” podem controlar os dois personagens sem sofrimento, alternando-os com o toque de um botão ou carregando o segundo Yarny nas costas, sem comprometer sua velocidade ou sua altura do salto.

Contudo, ao ser jogado em modo cooperativo, diferentes tipos de jogador poderão vivenciar a aventura. Os que buscam uma experiência mais tranquila e casual, como pais e filhos ou casais, podem jogar juntos e progredir pelos sete capítulos e, se um dos jogadores se deparar com dificuldades, o outro pode carregá-lo, assim como no modo solo. Ou, se for o caso, dois jogadores mais avançados podem praticamente planar pelo cenário no que seria o mais próximo de um balé virtual sincronizado.

Unravel Two
É possível controlar sozinho os dois Yarnys ou recrutar alguém para jogar junto (Foto: Reprodução)

Um pouco de novidade com mais do mesmo, por favor!

Para quem jogou Unravel, a dificuldade da campanha será familiar: talvez seja preciso quebrar a cabeça um pouco ou calcular bem o tempo de um salto enquanto uma engenhoca qualquer enche-se de água, mas nada de outro mundo. Os dois personagens e suas habilidades deram certa expansão aos quebra-cabeças, mas parecem nunca atingir seu potencial completo, já que alguns conceitos são reaproveitados durante o jogo. Prova disso é a habilidade de carregar o segundo Yarny, não explorando seu potencial completo, deixando os puzzles para dois heróis em momentos muito específicos.

Apesar disso, a experiência será bem mais complicada para os colecionistas: além de buscar todos os itens colecionáveis, 43 no total, o jogo oferece 20 fases-desafio, pequenas seções com dificuldade elevada que surgem como complementos e que não são obrigatórias para concluir a campanha. Além da dificuldade elevada, o jogador que gosta de buscar todos os troféus ou conquistas, também vai se deparar com o objetivo de terminar cada capítulo em determinado tempo, o que não é nada fácil, e o já clássico “passar a fase sem morrer”.

Unravel Two
Mesmo com dois Yarnys, o game nunca explora completamente seu potencial. (Foto: Reprodução)

Outro fator para que o nível de desafio seja semelhante ao do primeiro jogo é a jogabilidade não ter sido (muito) refinada. Nunca foi desastrosa, porém era fácil sentir o personagem patinando um pouco pelo cenário ou não responder tão bem aos comandos para escolar, e isso foi herdado por Unravel Two. Jogos de plataforma, principalmente aqueles que aproveitam a inércia do personagem, seu embalo para conseguir distância e superar obstáculos, devem ter os controles polidos ao excesso, e infelizmente isso não acontece aqui, frustrando algumas tentativas de ganhar a medalha de ouro por tempo em certos capítulos.

Veredito

Pode parecer pejorativo, mas não é: Unravel Two, apesar de falhar em atingir todo seu potencial, assim como o primeiro, a premissa é muito boa e consegue ser um jogo acessível a todos, além de proporcionar desafios para os que estão dispostos a mergulhar um pouco mais fundo. A adição de um segundo jogador torna a experiência em uma atividade social bem-vinda, mesmo que seja apenas local (sem online oficial por enquanto, mas é possível driblar o “apenas local” com as opções “share controller” no Xbox One ou “shareplay” no PlayStation 4). A jornada não é das mais extensas e, uma vez concluída a campanha, há pouco incentivo para voltar a não ser para os colecionistas.

Em momento algum o jogo se torna punitivo e, provavelmente, a melhor descrição é que Unravel Two é um jogo de plataforma cinematográfico interessante com alguns quebra-cabeças aqui e ali para se jogar numa tarde de sábado, sem muito compromisso.

Nota ótimo

Unravel Two está disponível no Brasil apenas em formato digital por R$ 79,00 para PC, via Origin, e pelo mesmo preço na loja do Xbox One. No PlayStation 4, pode ser adquirido por R$ 61,50. Também existem combos com o primeiro jogo, a consultar. No Metacritic, o título alcançou média de 76 pontos na versão avaliada.

*Review elaborado usando a versão de PC do jogo. Cópia fornecida pela desenvolvedora.