The Surge é o novo RPG de ação da Deck 13, criadora de Lords of the Fallen. O jogo segue o estilo souslike, assim como o título anterior da empresa. Para os que não conhecem, esse é o gênero consagrado pela franquia Dark Souls.

Diferente de outros jogos no meio, The Surge tem uma pegada bem sci-fi com robôs, exoesqueletos e terrores tecnológicos. Será que eles acertaram, ou criaram mais um clone sem vida? Peguem suas serras e coloquem seus equipamentos de segurança. É hora de mais uma análise do Jornada Geek.

Lanterna dos afogados

The Surge conta a história de Warren, um dos novatos mais azarados da indústria de jogos após Leon S. Kennedy. Logo no primeiro dia de trabalho, ele se vê sozinho no complexo das indústrias Creo enquanto todas as máquinas e funcionários, insanos obviamente, estão com sangue nos olhos atrás de sobreviventes para dilacerar.

A trama é bem padrãozinha, e serve como uma desculpa para seguir em frente com a ação. Ela tem pontos interessantes, como o questionamento de até quando a ciência deve avançar e o preço disso. Também, do lado negativo de se integrar homem e máquina. Mas, no fim das contas, os autores se contentaram com insinuações. Não temos divagações nem filosofias acerca do tema aqui. Em suma, o roteiro funciona, mas não irá ganhar nenhum prêmio por aí.

Um adendo interessante é que, pela primeira vez que me recordo, controlamos um cadeirante. Mas cara, como ele faz pra explorar o cenário e decepar as pessoas? Porque, meu querido leitor e leitora, ele tem um exoesqueleto que o permite andar novamente! Mas que, também, é responsável pela loucura generalizada que tomou contas do funcionários da empresa. Ainda que ele não fique na cadeira de fato, é legal ver a representatividade que foi feita aqui. Ponto para a Deck 13, e seu Warren. Uma pena que essa seja a única característica positiva do personagem, que no mais é só um “cabra macho silencioso forte” que vemos aos montes por aí.

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Não me pagam o suficiente pra essa droga. (Fonte: Divulgação)

Cachorro velho, truques novos

The Surge foi construído em cima daquela fórmula já batida da série Dark Souls. Inimigos com padrões definidos, mas com dano alto. Exploração de localidades vastas e com atalhos e pontos interconectados. Uso de uma moeda para melhoria de personagem que é perdida quando morremos. Nada aqui é novo demais, mas nem por isso podemos dizer que o título é um clone descarado de Dark Souls.

O jogo implementa algumas novidades além de sua roupagem sci-fi. O combate é bem visceral, e tem um enfoque grande em dano localizado e drop de loot. Enquanto lutamos, podemos selecionar qual parte do inimigo queremos atacar – braços, pernas, esse tipo de coisa. Após encher uma barra de energia, podemos segurar um botão para arrancar a parte fora com um golpe certeiro e bonito de se ver (embora pouco variado, mesmo com armas diferentes). Isso é bom porque dá mais componentes para customizarmos nosso exoesqueleto, construirmos armas e fazermos melhorias no que já temos.

Para desbloquear equipamentos novos precisamos, também, arrancá-los dos inimigos. Viu um capacete maneiro em algum trabalhador maluco do complexo? Arranque a cabeça dele fora e pegue pra você! O jogo dá um carinho especial à customização e construção de equipamentos, e isso nos dá uma liberdade boa para jogarmos ao nosso modo. Um adicional legal é que cada arma tem seu peso, sem ser ruim de usar. Armas pesadas são pesadas para atacar, e não estranhas de usar.

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Os exoesqueletos são muito maneiros, principalmente os mais avançados. (Fonte: Divulgação)

Quebrando o pau

Uma das boas surpresas que tive com The Surge foi no combate. Como eu disse acima, o esquema de arrancar partes dos inimigos foi muito bem feito. E adiciona um foco de estratégia ao combate, visto que atacar partes específicas é mais demorado que simplesmente bater direto na carne.

Embora não seja metódico e estratégico como Nioh, o sistema de luta agradou bastante. Ele até que é rápido, e não me pareceu arrastado mesmo quando eu usei o equipamento pesado. Isso é algo que a Deck 13 fez bem em Lords e repetiu aqui. O peso das armas é pertinente, e não é feito de tal modo que inviabilize um determinado estilo de jogo. Seja com armas de uma mão ou duas, bater de frente com a oposição é agradável e super responsivo.

Uma pena que não tenhamos tanta variação no visual e estilo dos inimigos. Todos os humanoides são parecidos, variando apenas a velocidade que atacam. As máquinas são mais diferentes, mas aparecem pouco e não são variadas o suficiente. Pelo menos os chefes são bem feitos e as lutas são divertidas, sem ser injustas.

O jogo é difícil, também, sem ser forçado demais. Se você pega o jeito de esquivar e bater rápido, fica tudo muito trivial. Mas, pelo próprio enfoque em dano localizado, lutar com mais de um inimigo é um inferno. E a câmera não ajuda nada. Por isso, use seu drone para kite e evite bater de frente com o bonde.

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Que exoesqueleto bonito. Sabe onde ele ficaria legal? Amassado no chão da… não, pera. (Fonte: Reprodução)

Corredores e mais corredores

Vou aproveitar para falar de duas coisas que me incomodaram: visual e design dos cenários. Visualmente falando, o jogo me agradou. Os exoesqueletos e partes são maravilhosos, e os modelos são bem feitos. Embora algumas texturas não tenham carregado e eu tenha dado de frente com inimigos dando clipping e se enfiando em paredes, tudo funcionou medianamente bem.

Os cenários são muito bem desenhados, incentivando demais a exploração. Existem vários caminhos para um local, e outros que são desbloqueados conforme aumentamos nosso “nível do núcleo”, o bom e velho level do personagem. Eu não sou fã de travar o progresso por nível em jogos assim, mas os requisitos não eram grandes a ponto de obrigar a ficar fazendo grind de sucata pra evoluir.

Além disso, a maioria dos cenários são dentro de instalações industriais, o que dá um senso de desolação e claustrofobia muito maneiro. Pense em algo como Dead Space ou o primeiro Bioshock. Pena que tudo seja construído com a mesma paleta de cores e assets. Sério, a variação do cenário é fraca e  deixa bem a desejar. A maioria do que vemos são passarelas, paredes e canos cinzas. O que é uma pena, pois o sci fi e o desenho dos cenários pedia, e permitia, muito mais.

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Prepare-se para ver muitas coisas parecidas.

Falha no sistema

Infelizmente, The Surge foi entregue com um tantinho bom de bugs. Em minha experiência de jogo vi inimigos ficando presos dentro de paredes, animações de morte sendo executadas no vento e sucata aparecendo no vazio. Além de glitches e alguns problemas de áudio.

Certa vez eu perdi 22.000 de sucata, muito para aquele ponto no jogo, porque caí em um buraco. Ok, eu fui orelhudo. Admito. Mas, eu deveria poder voltar pra buscar, certo? NÃO! O jogo fez meu marcador aparecer DENTRO do buraco que eu morri, sendo impossível de recuperar minha sucata perdida. Isso aconteceu, inclusive, umas três vezes. É enfurecedor, e realmente matou a vontade de jogar naquele dia.

Outra coisa que buga frequentemente é a câmera. Como eu disse, tudo aqui foi feito para peitar um inimigo de cada vez. Teve um chefe que enfrentei que era composto de n partes, e a câmera simplesmente ficava pulando sozinha de um para o outro. Terrível.

Finalizando

The Surge não é perfeito, infelizmente. A história deixa a desejar, sendo uma grande oportunidade perdida. A temática tem futuro, e eu espero que esse jogo ganhe uma continuação apenas para ter a chance de vê-la melhor explorada. A câmera não ajuda, os cenários são muito repetidos e é fácil de ser perder quando todas as salas parecem iguais. Não temos um mapa para nos guiar, e o título tem uma série de bugs.

Mas o combate e a exploração são tão viciantes que fica fácil colocar isso de lado. Eu sempre estava empolgado para ver onde ia chegar, os áudios que ia encontrar contando mais do desastre que ocorreu com a Creo e qual aberração mecânica iam colocar no meu caminho.

Nioh continua sendo o soulslike número 1 do meu coração, mas The Surge definitivamente conquistou um lugar entre os três melhores do gênero para mim. O combate divertido e a pegada sci-fi fazem esse ser um jogo recomendadíssimo para os fãs do gênero e de RPGs de ação no geral. Por isso, vista seu exoesqueleto e venha dar um passeio nas instalações da Creo. O futuro te espera, e não irá se arrepender.

Nota ótimo

*Review elaborado usando a versão de PS4 do jogo. Cópia fornecida pela desenvolvedora.