NIOH | Sympathy for the Oni

Quebrando expectativas, Team Ninja trouxe um excelente exclusivo para PS4

Venho acompanhando o desenvolvimento de Nioh de perto desde o ano passado, quando  tive oportunidade de jogar a primeira demo. Consegui completar ela e as que saíram depois, tendo uma boa ideia do produto final.

Ainda que vá contra meu bom senso, fiquei com um hype tremendo pelo jogo. Não era para menos, já que vindo da mente dos caras da Team Ninja (famosos pela série Ninja Gaiden), Nioh foi anunciado como um jogo de ação nos moldes de Dark Souls, no qual um samurai oriental enfrentava diversos inimigos, humanos e yokais, no Japão feudal, devendo sempre observar sua barra de Ki (ou stamina, para os mais chegados), coletar armas e equipamentos e usar de algo no estilo das almas da série Souls para melhorar suas habilidades. E, sendo a cereja do bolo, o jogo possuía uma vibe de Onimusha que era simplesmente sensacional.

E, finalmente, estamos com o jogo nas mãos para testar e opinar. Será que ficou tão bom assim?

O incrível mundo de William

Nioh conta a história de um marinheiro chamado William Adams, famoso por ser o primeiro samurai ocidental da história. Ele chegou no Japão em 1600 e após algum tempo se tornou conselheiro do shogun Tokugawa Ieyasu. Para quem se interessar mais, a Wikipedia tem um artigo muito bem feito contando a vida dele. Mas já adianto que ele não lutou com demônios, utilizou espadas de fogo e não teve guardiões espirituais como o jogo nos mostra.

A Team Ninja tomou grandes liberdades com os personagens, tal qual Dinasty Warriors, Samurai Orochi e o próprio Onimusha fizeram. Nesse conto, William é um homem em busca de sua guardiã espiritual, que foi tomada por um alquimista chamado Edward Kelley, também baseado em uma pessoa de carne e osso. Adams vai ao Japão em busca de seu desafeto e lá encontra demônios e bandidos oprimindo terras. É preciso bolar um plano para obter Amrita, uma espécie de “Pedra Filosofal”, que tem o poder de mudar o rumo do mundo.

Nioh - PlayStation 4
Foto: Divulgação

Bem padrão, não é? Aquele velho conto de “mocinho tem algo roubado de si, persegue o malfeitor e se dá de cara com uma conspiração que promete balançar a fábrica da realidade”. Nada de novo até aqui. Contudo, por mais simples que seja, a história é bem contada, os personagens são bem definidos e o ambiente é construído e apresentado com maestria. A produtora soube capturar toda a beleza e opressão vistas na era Sengoku, bem como o charme das localidades e da parte mais rural do Japão. Esse detalhamento e cuidado com a representação fazem até uma história simplória e direta como a que é apresentada ser interessante, ao ponto de que explorar as localidades não se torna uma coisa chata.

Em suma, não espere aqui uma trama elaborada e pessoal como a saga de Ellie e Joel (The Last of Us), mas sim uma que é boa o suficiente para dar um sentido a ação e criar vontade o suficiente para ver o final.

O Estilo Samurai

Umas das coisas que me agradou quando joguei a demo pela primeira vez, e fiquei feliz de ver bem implementada, foi a mecânica de stances que desenvolveram para o jogo. O jogador pode escolher entre três stances para utilizar as armas de William, cada uma destas com um foco específico:

  • High Stance é focada em golpes fortes, porem mais lentos e fáceis de um inimigo escapar ou defender e que consomem horrores de stamina.
  • Mid Stance é o meio termo, possuindo golpes um pouco mais rápidos, menos fortes e com um consumo menor da barra de Ki.
  • Low Stance possui os golpes mais rápidos e com menos custos, além de uma esquiva mais ligeira, porém seu dano deixa um pouco a desejar.

Por mais que pareça algo simplório, esse esquema introduz uma complexidade bem vinda ao jogo, sendo que cada inimigo e cada situação pode ser encarada de diversas maneiras fazendo uso dessa mecânica, além de deixar o combate fresco, pois cada stance de cada arma possui golpes com tempos de animação e alcances diferentes. Além disso, William possui uma habilidade chamada Ki Pulse, que o permite recuperar imediatamente uma porção do Ki  utilizado para executar um golpe ou técnica. Esperar a barra carregar lentamente é coisa do passado!

Essa mecânica funciona mais ou menos como o active reload da série Gears of War, no qual o jogador precisa apertar um botão (nesse caso R1) no tempo exato para executar a ação. É interessante notar que seu uso não é de todo obrigatório, mas extremamente encorajado pelo game. O Ki Pulse permite que o jogador acabe com áreas yokai, criado pelos demônios, onde seu Ki não recarrega, além de contar com algumas Skills que aumentam significativamente o dano do próximo ataque ao se fazer um Ki Pulse perfeito.

Nioh - PlayStation 4
Foto: Divulgação

Além disso, temos magias e ninjutsus. Aqui não temos nada de extremamente inovador: alocando pontos de habilidade, podemos compras shurikens para usar, talismãs para adicionar elementos aos ataques, pílulas de defesa e cura, bombas, kunais, o padrão. O interessante é que esses itens são recarregáveis, e completam sempre que você visita uma shrine (algo como as bonfires de Dark Souls). Cada um tem um gasto para se equipar, e a quantidade de itens que o jogador pode utilizar é ligado ao nível de Ninjutsu e Onmyo Magic que William possui.

Isso tudo, somado à quantidade de armas disponíveis e as diferenças entre cada uma, deixam o combate sempre fresco, sem muita repetição e extremamente flexível. Por exemplo, eu joguei usando uma categoria de armas chamada Kusarigama. Aqueles que jogaram o saudoso Ninja Gaiden 2, de PS3, devem se lembrar dela como a foice presa em uma corrente que Ryu usava com maestria para matar geral. Em Nioh, cada stance faz a arma ter um alcance diferente, sendo que a High Stance  dela possui um ataque bom para separar inimigos (faz com que William atire a bola da corrente pra frente, atacando um inimigo e o chamando para si), além de ataques que prendem e puxam inimigos, no estilo da corrente do Scorpion de Mortal Kombat. Além dessa minha preferida, temos espadas simples e duplas, machados, lanças, arcos e rifles. Muito completo e garanto que cada jogador vai achar uma que se encaixe bem em seu estilo de jogo com facilidade.

É realmente incrível ver como a Team Ninja acertou no combate com esse jogo. O que era uma das minhas grandes preocupações, principalmente após da tristeza que foi Ninja Gaiden 3. Contudo, depois de experimentar e ver como acertaram em Nioh posso dizer, de coração tranquilo, que eles voltaram com tudo!

Ao gosto do freguês

Outra escolha certa, que eu espero ver mais de todas as produtoras no futuro, é a possibilidade de escolher qual esquema gráfico e de frames você deseja utilizar. Aqui temos duas possibilidades: Movie Mode e Action Mode.

No primeiro, temos os melhores gráficos, texturas e detalhes. O jogo assim fica consideravelmente mais polido e bonito, contudo o framerate fica trancado em 30 FPS. Para aqueles que desejam uma experiência mais agradável ao olhar, esse é o jeito de jogar. Mas adianto que em jogos que tem um foco em reflexos rápidos como Nioh cada frame a mais conta, além de deixar a experiência bem mais fluída e dinâmica.

No Action Mode contamos com gráficos significativamente piorados, com mais texturas simples, serrilhados e um nível de detalhe menor. Não que o jogo fique feio demais ou com cara de antiga geração, mas ele fica bem mais grosso nos detalhes e com menos refino. Contudo, temos uma taxa de 60 frames por segundo, e isso faz toda a diferença para mim. Todo meu tempo de jogo, das demos ao produto final, foi feito no Action Mode, e esse é o modo que acho mais adequado e mais simples de se jogar, facilitando defesas e respostas para ataques e esquivas. Mas, independente do modo, é bom ver a produtora dar essa opção em jogos de console. É uma prática que eu espero de coração ver implementada em jogos futuros, não só da Team Ninja.

Voltando a falar de fidelidade, quem gosta de cultura japonesa (principalmente na época dos samurais) vai ir ao delírio com o detalhe e as armaduras feitas para o jogo, principalmente no Movie Mode. Cada set de armaduras é mais bem feito e trabalhado que o outro, principalmente aqueles dados de presente aos que conseguiram terminar as duas demos. Quando estiverem jogando, tentem completar e equipar todo o set Unusual Armor, é um dos meus preferidos.

Clone de Dark Souls?

Eu ouvi essa frase demais nesses últimos meses, e como ela está longe da realidade. É fato que Dark Souls criou um novo gênero de jogos, assim como Amnesia fez com os jogos de terror em primeira pessoa ou Resident Evil 4 com sua câmera por cima do ombro. Nioh bebe muito dessa fonte, implementando uma dificuldade maior, inimigos que não perdoam, perder todos seus pontos de experiência não utilizados quando morre, um foco em combate mais tático, etc. Mas isso faz dele um clone? Felizmente, de jeito nenhum.

Muitas mecânicas diferentes fazem com o que o jogo seja único dentro desse novo gênero criado. Por exemplo, aqui não temos um mapa interconectado e aberto como Dark Souls, por exemplo. O jogo é dividido em missões, e cada uma dela contém sub-missões que podem ser encaradas para obter mais experiência e recompensas. O mapa não muda, mas rotas bloqueadas, nova disposição de inimigos e itens, além de uma dificuldade aumentada, fazem valer a pena revisitar esses localidades. Além disso, temos as chamadas Twilight Missions, que são missões especiais focadas em alto risco e recompensa, dando mais uma camada de profundidade ao gameplay e variação nos objetivos.

Outra coisa legal é o esquema de Revenants. Quando um jogador morre, ele deixa para trás um túmulo que aparece durante o jogo de outras pessoas. Por exemplo, durante meu tempo de jogo eu cheguei em áreas com inimigos mais fortes que estavam lotadas desses túmulos, indicando que com certeza tinha algum yokai casca grossa ali, ou uma emboscada. Quando tocamos nesses túmulos, invocamos o espírito do jogador morto para enfrentarmos como um inimigo mais forte. A grande sacada aqui é que, ao ser derrotado, o Revenant derruba um pedaço do equipamento que o jogador usava ao morrer. Isso é excelente para aqueles que não deram sorte nos drops de inimigos comuns e precisam de coisas melhores para encarar os chefes e inimigos mais parrudos que esperam nas últimas zonas de cada missão. Soma-se que os combates com esses inimigos especiais é muito divertido e intenso, ainda que eles tenham uma inteligência bem fácil de ser explorada. Basicamente, defender e contra atacar com habilidades de chute acaba com eles bem rápido.

Nioh - PlayStation 4
Foto: Divulgação

E uma das grandes sacadas é que os inimigos são governados pelas mesmas regras que os jogadores. Todos eles tem uma barra de Ki que é gasta ao atacar, e quando ela termina eles também ficam atordoados por um instante e precisam se recuperar. Os inimigos humanos usam as mesmas instâncias e ataques que William, e nunca sentimos que a máquina tem uma vantagem muito maior sobre nós ou que os inimigos são seres mágicos que não cansam, atacam a torto e direito e nunca precisam parar para se recuperar.

Isso acabou criando uma tensão espetacular no combate, quando tanto você quanto o inimigo ou o chefe estão com o Ki baixo e ficam se encarando esperando um mínimo de energia para dar o golpe final ou fugir. Com bosses maiores e rápidos como os dois primeiros, por exemplo, saber conservar seu Ki  enquanto o oponente gasta o dele é essencial para uma vitória mais rápida e menos suada. Isso era algo que antes só víamos em PVP, com outros jogadores, e eu particularmente achei a implementação espetacular. É algo simples que muda a dinâmica completamente, e dá um diferencial para a obra.

E falando em PVP,  aqui também teremos isso! Mas não no lançamento. A Team Ninja afirmou que está trabalhando nessa funcionalidade e que ela virá em um update futuro, mas que ainda não há uma data específica para recebermos. Por hora contamos com o bom e velho co-op, que funciona basicamente da mesma forma que Dark Souls e jogos do gênero. Ao usar um item nas shrines podemos chamar alguém para nosso mundo, e também podemos selecionar uma opção para sermos enviados de maneira aleatória para o mundo de alguém. É divertido ajudar outros jogadores com bosses e criar estratégias, mas admito que o jogo fica trivial demais assim. Certos chefes são fáceis demais de se abusar com outro jogador ajudando, e os encontros acabam se tornando banais de tão fáceis. É legal ter essa opção implementada e é ótimo jogar com amigos, mas eu particularmente preferia encarar as missões sozinhos para poder experimentar o jogo com o nível de dificuldade pensado pelos desenvolvedores.

E sobre dificuldades, uma dica: Assim que possível coloquem pontos em Onmyo Magic e comprem o Sloth Talisman, ele desce a velocidade do inimigo em 50%, tornando os bosses uma piada. É uma magia bem desbalanceada e vai contra o espírito da coisa, mas em certos bosses mais ligeiros e irritantes ela quebra um galho tremendo. Novamente, é interessante ter essas magias, mesmo que elas quebrem os inimigos e abaixem a dificuldade demais, em um jogo onde passar aperto e morrer é um dos pontos principais.

Finalizando

Sinceramente, os que leram até aqui já devem ter uma ideia boa da minha opinião final desse jogo, não é? Eu fiquei realmente encantado com o universo criado, os inimigos e mecânicas, detalhes, tudo.

Ele é fácil de recomendar para aqueles que gostam de jogos com a mentalidade Souls, e também para aqueles que gostam de jogos de ação no geral. Mesmo governado por uma barra de Ki, o combate ainda é mais corrido e frenético que outros jogos da classe, fazendo com que seja uma boa pedida para gregos e troianos. Contando com uma campanha recheada de missões e sub-missões, inimigos, segredos nas fases, baús para encontrar, colecionáveis, armas, magias, vamos ter conteúdo para jogar durante um bom tempo. Uma das estimativas de tempo para platina que li, por exemplo, fala de 100 horas para conquistar todos os troféus. É um tempo considerável, e faz valer o preço sugerido valer cada centavo.

Se você gosta de samurais e demônios, jogos da escola de Dark Souls, ou só aprecia jogar algo bem feito e acima da média, então precisa mesmo comprar, alugar ou dar um jeito de jogar isso aqui. A falta de PvP, história meio zoada e maneiras de deixar o jogo trivial não fazem nada para diminuir a glória e os méritos da Team Ninja por ter criado mais um clássico do gênero de ação.

Estamos vendo uma nova IP de peso surgir, meus amigos, e o futuro é promissor. Agora, se me dão licença, preciso voltar ao Japão. O tempo é curto e eu ainda tenho muitas terras para salvar e demônios para derrotar.

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