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Déraciné | A estreia da FromSoftware no PS VR

Estúdio aposta em formato diferente e game agrada os donos do PS VR

Até agora, não tivemos grandes produtoras investindo de verdade no PlayStation VR. Claro, os óculos de realidade virtual da Sony possui grandes títulos como Skyrim e Resident Evil 7 (que eu não atrevo a encarar com esse nível de imersão) na lista de jogos compatíveis.

Mas estes são jogos normais adaptados para o PS VR, sem terem o acessório levado em conta na sua concepção. A FromSoftware, dos queridinhos Dark Souls e Bloodborne, e a Japan Studio resolveram fazer sua estreia no mundo da realidade virtual e trouxeram uma surpresa: Déraciné.

Déraciné é uma palavras francesa que pode ser traduzida para desenraizado. Ela é usada para se referir a uma pessoa que foi removida de seu ambiente social e levada para outro lugar, ou uma pessoa que se sente deslocada. Vamos entender o porquê desse nome.

O jogo foi dirigido pelo próprio Hidetaka Miyazaki (da série Souls). Miyazaki afirma que Déraciné tem grande inspiração na poesia de Fiona MacLeod, pseudônimo do escritor e poeta escocês William Sharp. Em sua poesia, MacLeod tratava de temas sérios, como tristeza e solidão, mas também tinha outro assunto muito comum em sua obra: o folclore celta.

Os mistérios de Déraciné começam antes de jogar

Uma criatura comum nesse universo eram as fadas. Entre uma das histórias do folclore, existe a crença de que fadas roubavam bebês recém nascidos para que estes crescessem e se tornassem seus servos. No lugar da criança, as fadas deixavam seus próprios bebês, que enganavam os pais assumindo a forma do filho perdido.

Em Déraciné, você controla uma fada em um internato, interagindo com as crianças, explorando os cenários e revelando mistérios. No trailer do jogo, anunciado na E3 deste ano, podíamos ouvir o que parecia ser uma criança animada com a ideia de crescer no mundo das fadas. Podemos fazer uma ligação direta com as fábulas celtas, mas apenas como pura especulação, pois o jogo não te entrega os fatos de bandeja. E essa é a principal virtude aqui: o storytelling.

Déraciné | A estreia da FromSoftware no PS VR
Exploração é uma das virtudes de Déraciné (Foto: Divulgação)

A construção de mundo

A série Dark Souls ficou famosa entre gamers devido a sua alta dificuldade, onde você se encontrava em um mundo opressivo, com mecânicas de jogo que puniam severamente o menor dos erros. Particularmente, acho que isso não é o que o jogo tinha de mais interessante a oferecer, mas sim a sua história.

Miyazaki não criou uma narrativa tradicional, com um herói que segue sua jornada para superar obstáculos e vencer o grande mal que assola o mundo. Tanto em Dark Souls como em Bloodborne, se você quisesse entender o que estava acontecendo, era necessário ler a descrição dos itens, conversar com NPC’s que falavam coisas aparentemente vagas e juntar todas as informações como se fosse um grande quebra-cabeças.

Déraciné | A estreia da FromSoftware no PS VR
Foto: Divulgação

Para mim, muito da motivação para seguir em frente nesses títulos veio de querer saber mais sobre as cidades de Lordran (em Dark Souls) e Boletaria (no título que deu início à série, Demon Souls). Para entender os conflitos e acontecimentos que levaram você a estar ali, era preciso ler tudo com muito cuidado, e não foram poucas as vezes que acabei recorrendo a algumas pesquisas para entender totalmente a narrativa.

Em Déraciné, essa mesma rica estrutura se repete. Antes mesmo do lançamento do jogo, já no trailer de anúncio, existem diversas mensagens a serem decifradas, que tornam a experiência muito mais interessante. Essa forma complexa de criar mundos, que precisam ser desvendados como se o jogador fosse um historiador, é o verdadeiro diferencial da FromSoftware.

Um jogo que nasceu para o PlayStation VR

Nesse ponto, o game é perfeito. Um jogo de pura exploração e quebra-cabeças, que a cada carta lida, cada item encontrado, novas informações surgem e mais você aprende sobre os mistérios do internato e sobre cada uma das crianças que moram ali. O uso do PlayStation VR é a cereja do bolo.

Como uma fada, você possui dois poderes: o primeiro é o de controlar o tempo. Da mesma forma que no folclore celta, em Déraciné as fadas vivem em outro plano, invisível aos olhos dos humanos, onde o tempo corre de forma diferente. Enquanto você percorre os corredores do internato, o tempo permanece estático, e você pode ver o passado e, ao completar seus objetivos, avançar para o futuro. O segundo poder é o de dar a vida: você pode tirar a vitalidade de seres vivos (como plantas) e transferi-la para outros seres.

Déraciné | A estreia da FromSoftware no PS VR
Jogabilidade é ideal para o PS VR. (Foto: Divulgação)

Essas mecânicas, aliadas à realidade virtual, criam uma imersão quase que natural para o jogador. Tudo tem um motivo para ser como é, e não por simplesmente ser “a regra jogo”. Andar pela casa sem poder ser visto e descobrir o que as crianças estão fazendo é bastante divertido.

Em um cenário lindo e com uma ótima trilha sonora, não leva muito tempo para você mergulhar dentro do jogo. De início, você trabalha para mostrar para as crianças que você existe, e depois cria um forte elo com cada uma delas. A narrativa é profunda, o que contribui para manter a curiosidade e te deixar emocionalmente investido.

Uma narrativa rica, um ambiente nem tanto

A única coisa que senti falta em Déraciné, foi justamente a falta de coisas a se fazer durante sua exploração. Como o jogo inteiro é exploração, deveriam haver mais objetos para interagir, e muito mais fragmentos de histórias espalhados pelo cenário. É um pouco decepcionante quando você chega a uma nova área, entusiasmado em descobrir novas coisas, e se depara com um quarto com nada além de umas cadeiras e estantes, sem nada para ver ou interagir.

Déraciné | A estreia da FromSoftware no PS VR
As pessoas não conseguem ver você em Déraciné. (Foto: Divulgação)

Déraciné é um projeto diferente da FromSoftware. Miyazaki precisa ser elogiado por sua vontade de criar coisas novas e continuar se desafiando a fazer mais. O estúdio produziu o game com um orçamento mais modesto para ter essa liberdade de experimentar novos padrões, e principalmente de experimentar com o PlayStation VR.

Quando o jogo foi anunciado, muitos se decepcionaram, esperando mais um jogo da franquia Souls ou Bloodborne 2. Mas Miyazaki já havia dito que não trabalharia mais com essas séries, e que vai fazer cosas novas. Para se criar algo novo, o criador não pode ficar preso a padrões e ter medo de experimentar. Miyazaki sabe disso, e por isso ele capaz de criar jogos tão refinados.

Déraciné é uma ótima experiência, apesar de pequena. Quem possui o PlayStation VR e gosta de uma boa história não pode perder esse título. O título será lançado nesta terça, 6, exclusivamente em formato digital, por R$ 119,99 na PlayStation Store.

Nota ótimo

*Cópia fornecida pela desenvolvedora.

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