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VERMELHO COMO O SANGUE | LITERATURA

Vermelho Como o Sangue
Vermelho Como o Sangue

Fazer careta diante de mais uma versão moderna de um conto de fadas já nem é mais novidade. Entre livros, filmes, séries e quadrinhos, sem contar fanfictions, o mercado atual de entretenimento está abarrotado de historinhas que se pretendem novas, mas que são, geralmente, pobres versões recicladas do mesmo. Existem bons trabalhos, como Fábulas, quadrinhos de Bill Willingham, ou aqueles que simplesmente contam as histórias como elas eram, como fez Fautso Wolff, mas as bombas prevalecem. Quando Vermelho como sangue vem abrir a Trilogia da Branca de Neve, a primeira ideia está ligada aos fracassos. Calma, não é bem assim.

Salla Simukka não está nem um pouco interessada em contar a história daquela Branca de Neve, naquele contexto lindo de bruxa, maçã e príncipe. A crueldade aproxima-se mais do tom de Charles Perrault, mas com magia e catáter escassos na proporção: ninguém encanta ninguém e a primeira cena já mostra que muitos segredos levam os personagens a lugares em que dias antes não imaginariam estar.

Nas quatro primeiras páginas, o leitor conhece Natália, se envolve com sua história, sente-se pressionado como ela e a vê morrer. Nas páginas seguintes, nenhuma explicação sobre a morte: vozes, uma porta aberta e muito dinheiro sendo escondido numa câmara escura. Na terceira parte é que conhecemos Lumikki, a jovem de 17 anos que foi estudar numa escola de arte para poder morar longe dos pais.

Lumikki não é só isso: desde a infância, sofreu com comentários e ações de familiares, colegas e até em relacionamentos que acreditava diferentes. Com os percalços, aprendeu a estudar as pessoas e a se conhecer para lidar com elas. É essa a menina estranha que não tem amigos na nova escola e que se vê envolvida numa história que tem morte e dinheiro como motivações.

A trama se passa na Finlândia, país da autora, e Lumikki, como ela explica no meio do livro, traz Branca de Neve como correlativo, e a personagem realmente se parece com ela: pele clara e cabelo escuro, mesmo que artificialmente. As semelhanças com o clássico não acabam aí: a neve é constante, o frio muda comportamentos em vários pontos da trama e o vermelho contrasta com o branco como no início da história em que a mãe vê três gostas de sangue na neve e pede uma filha com lábios daquela cor na superfície alva e cabelos como o ébano da moldura da janela.

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Branca de Neve, digo, Lumikki, no entanto, não está em busca do príncipe encantado e acaba se aproximando, não por opção, de uma colega de colégio e seus três amigos supérfluos. Este trio é que deixa Lumikki nas mãos do caçador, mostrado através de nomes que comandam o tráfico de drogas na cidade. E eles não têm piedade da jovem, que eles nem sabem quem é.

Em meio a momentos de ação e uma trama que começa melhor do que termina, Simukka leva o leitor por uma narrativa que permite saltos temporais e espaciais, numa maturidade superior que a da maior parte dos livros desse tipo. Num mesmo lugar, permite vislumbrar situações diferentes, assim como pula para momentos posteriores em elipses que deixam clara a falta de necessidade de detalhar o que pode pode ser resumido depois.

Pouco depois do meio, alguns mergulhos em lembranças de Lumikki são um pouco demasiados, mas importa acabar a leitura para fazer o julgamento: serão informações úteis para os próximos livros ou apenas servem para conhecermos melhor a protagonista? Se é a segunda opção, são mergulhos demorados e desnecessários; se a opção escolhida é a primeira, vamos aguardar pelos próximos livros, que podem trazer mais explicações e menos divagações, no que se espera sempre de uma trilogia: o próximo sempre melhor que o anterior.

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