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BOA NOITE, ESTRANHO | LITERATURA

Boa noite estranho“Boa noite, estranho” jogado, assim, sem se explicar qualquer contexto, soa muito desconexo com a história direta e honesta de Jennifer Warner, pela Editora Novo Conceito. Diante dele, é preciso perceber e entender que subsiste uma crítica por trás desse título de aparentemente mais um simples enredo policial transcorrido num pacato subúrbio dos EUA. Em Upchurch, Connecticut, uma sobrecarregada ex-jornalista e mãe de três filhos com menos de 5 anos descobre o corpo de uma exemplar dona de casa caído na cozinha, com uma faca cravejada nas costas. Além disso, uma das últimas pessoas que a vítima contactou foi o lindo e agradável Evan, grande amor da protagonista Kate.

Com esse estopim misterioso, a autora, no fundo, busca escancarar como nossas escolhas (errôneas, interesseiras, calcadas na manutenção de um status social) nos afastam de nós mesmos, daquilo que nos pulsa o coração. Acabamos nos tornando falsos, mesquinhos, introspectivos, angustiados, decepcionados, amargurados assim como Kate não se cansa de se expressar. Dessa forma, no final, estamos envolvidos, deitados lado a lado e fazendo sexo na mesma cama com um verdadeiro desconhecido. O simplório chuveirinho de banho usado pela protagonista nos momentos de solidão, mesmo após atos sexuais com o esposo, representa a máxima desse isolamento e escapismo.

As desenvolturas da investigação por conta própria da personagem principal, aliadas à narração das histórias do próprio passado, evidenciam que todos na cidadezinha, ou mesmo ao redor, vivem de aparências, reprimindo desejos em prol da imagem, ou escondendo informações pregressas tidas como vergonhosas. Nesse quesito, a história peca e acerta simultaneamente. Perpassa uma riqueza de detalhes e nuances, carregada de humor apimentado e crítico tipicamente norte-americano, tanto durante a fase de solteira quanto na era de casada. Isso reforça a história, dando-a mais credibilidade. Porém, leitores distantes dessa realidade dualista, Nova Iorque glamourosa x interior recalcado, podem se sentir deslocados ou desconfiar desse universo pincelado.

Ainda sobre o excesso, o desvendar do mistério dá voltas demais. Há uma sobrecarga de entrevistas, de vai e vem, de encontros e de informações soltas que não fazem a história movimentar direto ao ponto. Se os fatos fossem mais enxutos, sem sombra de dúvidas, seria possível distrair e entreter de maneira mais precisa, com as famosas figuras irreverentes de histórias com viés cômico. São retratadas a grande amiga carregada na grana, Jane, que surge sempre pra facilitar contatos, além de ser babá da gangue de filhos; uma mãe ausente, excêntrica, dramática cantora de ópera que rouba a cena em alguns momentos; e também as donas de casa do bairro com seus costumes rígidos e sem noção sobre hábitos alimentares, vestimentas e comportamentos sociais.

Apesar das honestidades reveladas, um ponto não faz jus a este teor tão aberto e sincero do livro. O subtítulo “Detetive por Acidente” é um afronte à personalidade justa, impulsiva, curiosa e afetiva de Kate. Esta se importa com a amiga assassinada e quer conhecê-la após a morte pelo remorso por ter se afastado deliberativamente. As buscas pessoais não se iniciaram porque ela apenas virou testemunha do homicídio. No fundo, descobrimos que ela é uma investigadora nata, o sangue dela pulsa enquanto tenta desvendar mistérios. Na vida anterior, em Nova Iorque, em diversas vezes, ela mostra talento na arte de espionagem. Averiguar e buscar são partes da essência da protagonista, não é por acaso. Como conciliá-los com a conjuntura de mãe e esposa?

Não há resposta, apenas indícios. Após os abalos por se desvendar o mistério, Kate cai num verdadeiro limbo. Não escolhe se vai deixar de ser uma mulher suburbana e domada, embora ame os filhos e tenha reais sentimentos de carinho e cuidado com eles. Ela não se decide se largará o marido, ou se ficará com o grande amor Evan. Só ficam prelúdios de que a paixão por ser detetive vai permanecer, comichando, uma vez que parece haver pontas soltas na história da dona de casa assassinada que podem gerar uma continuidade. Certo é que ninguém muda repentinamente da água para o vinho, nem vira detetive por acidente, ou muito menos acaba dando boa noite a um estranho, sem que vários fatores atuem.

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