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Enquanto a Chuva Caía | LITERATURA

Enquanto a Chuva Caía é um título sugestivo. Afinal, enquanto a chuva realmente cai, uma das melhores coisas a se fazer é, de fato, ler um livro. E há livros para todos os tipos de chuva.

Pancadas de verão, por exemplo, são afeitas a contos e poemas, e não só por estes serem tão curtos quanto costuma durar esse tipo de precipitação. O cerne da comparação tem mais a ver com as sensações que provocam.

Contos e poemas leves, por exemplo, pertencem ao mesmo gênero da vontade infantil de sair de bicicleta sob a torrente, passando com a roda em cima das poças (e com a promessa de sol e arco-íris depois). Em contrapartida, pequenas narrativas e versos mais densos, mais dramáticos ou mais tristes, podem provocar deslizamentos de pensamentos e emoções contra os quais nem sempre estamos prevenidos e para os quais não há defesa civil que consiga controlar o caos interior depois.

Há também as tempestades, repletas de raios, relâmpagos e trovões, tempo ideal para romances de capa e espada, como os de Alexandre Dumas, ou para mergulhar com Moby Dick. Por outro lado, garoas de dias frios clamam por romances açucarados, a la Jane Austen e Charlotte Brontë, desses que se juntam ao aconchego da coberta e do brigadeiro quente para comer de colher. Ou então, se o céu estiver mais cinzento e os humores também, histórias um pouco mais doloridas, com trejeitos de Emily Brontë (há Brontës para todos os gostos e gotas) ou Milan Kundera e seu A insustentável leveza do ser.

A história de Christine M. que me chegou às mãos pela Editora Novo Conceito, tem, nesse sentido, o título perfeito. Em primeiro lugar, a chuva pura e simples: nem garoa nem tempestade e tampouco tormenta passageira de verão. Em segundo, o pretérito imperfeito empregado, neste caso, à perfeição. Uma chuva que não caiu simplesmente,  num passado encerrado em si mesmo, dando lugar, em seguida, ao frio ou ao sol. Uma chuva que é constante; que encharca e não termina. Um dilúvio de todo um dia.

Se eu fosse definir o tipo de chuva do livro de Christine, seria esse: a que cai o dia inteiro, nem forte nem fraca, sem apertos ou estiagens; sem parar. Pelo menos é essa a chuva que me parece cair ininterruptamente sobre os personagens Erik e Marina. Na descrição da protagonista, as gotas que despencam das nuvens são suas amigas, caídas do céu sempre nos momentos mais significativas. Nos solos protegidos do casal de narradores, porém, elas, na verdade, desabam em todos os momentos, sem trégua, inundando-os de paixão e desejo (sim!), mas também de dúvidas, receios, mistérios. Pingos (de perdas, de encontros, de despertares, de angústias, de alegrias, de ambiguidades, de problemas, de segredos) que se infiltram nas estruturas de ambos e racham suas máscaras cuidadosamente modeladas e paulatinamente derretidas.

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No último texto da coluna, questionei onde estão os novos escritores brasileiros e arrisquei algumas pistas. Naquela ocasião, tinha acabado de receber o exemplar de Enquanto a chuva caía, embora ainda não o tivesse iniciado. Lembro-me de que, apesar de já ter informações sobre o selo Novas Páginas e até conhecer alguns de seus autores, surpreendi-me ao constatar que a moça cujo nome estava na capa era brasileira. Na verdade, surpreendi-me ainda mais quando, ao pesquisar sobre ela, descobri que é conhecida, autora de outros romances (o que certamente me faz crer que a editora a contratou porque, de fato, comprovou anteriormente seu talento).

Foi, de verdade, uma grata surpresa, sobretudo por sua capacidade narrativa, que me cativou desde o primeiro capítulo. Tanto Erik quanto Marina são personagens redondos, complexos, equilibrando-se numa linha tênue entre o bom-mocismo e a vilania que os torna ainda mais interessantes (principalmente porque não sabemos muito bem quem é quem até as páginas finais). E fiquei particularmente feliz ao constatar que, ao contrário de tantos, ela não subestima a capacidade do leitor de compreender as alternâncias entre os narradores sem que seja necessário identificar a voz da vez a cada mudança.

Uma boa descoberta. E um bom banho de chuva.

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1 COMENTÁRIO

  1. Realmente a resenha mais clara e objetiva que li,formidável nunca revi toda estória em uma resenha “limpa” adorei,esta autora ,escrevedora não importa …em um futuro próximo será a melhor escritora brasileira desse novo tempo literário.
    Parabéns por enxergar exatamente o que as letrinhas deste livro quis dizer 😉

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