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O Desafio | LITERATURA

Há duas angústias provocadas por séries literárias. Um delas diz respeito àquelas séries que não começam como tal, mas acabam se transformando em sequências em função, sobretudo, do sucesso de público, o que implica – e é este, de fato, o fator preponderante – sucesso de vendas. Neste caso, embora cada volume tenda a se encerrar em si mesmo, sem necessidade de uma continuação (ou com uma necessidade fabricada editorialmente), minha agonia se dá duplamente: de um lado, o mais sentimental, há, sim, o desejo de acompanhar os personagens mais um pouco, de saber o que lhes aconteceu; de outro, porém, o racional, há sempre o temor do tiro no pé, porque “o-que-acontece-depois” nem sempre é tão interessante e pode comprometer uma história que tinha tudo para ser boa não fosse a aposta em esticá-la mais do que ela poderia suportar. Às vezes as tramas – sejam elas de cordas ou de narrativas – costumam arrebentar.

Particularmente, prefiro a segunda angústia, a que é ocasionada por séries que já nasceram para serem séries, que foram concebidas assim, desde o princípio. Trilogias, tetralogias ou heptalogias (para citar os modismos quantitativos mais comuns) que são, na verdade, um único livro vendido em fascículos e cuja história nos chega aos golinhos, como os antigos folhetins, deixando uma sede crescente pelo fim.

Para mim, esta é uma ânsia mais doce, mais saborosa, o que não significa que seja menos arriscada. Minha última prova dessas foi com o romance de estreia da escritora C.J. Redwine, Desafio, que abre a trilogia (olha ela aí de novo!) de mesmo nome (Defiance, no original). Se o nome abreviado da autora já não denunciasse (como parece também ser moda entre os escritores do gênero), é um livro de fantasia, que se passa num tempo inespecífico no futuro (embora combine elementos tecnológicos com os de velhas aventuras de capa e espada).

Por trás das muralhas de Baalboden, onde vivem os protagonistas Rachel Adams e Logan McEntire, os cidadãos se escondem do temido Maldito, um monstro perigoso e letal libertado das profundezas das terras, do qual, a princípio somente o cruel comandante da cidade pode protegê-los (há um leve quê de A vila no pensamento de uma cidade isolada a fim de sobreviver a uma criatura “mítica”, tendo que, para isso, submeter-se aos caprichos políticos de quem está no comando). A trama é narrada alternadamente por cada uma das pontas do casal principal, na busca pelo pai de Rachel e pelo misterioso pacote escondido por ele e que não pode cair em mãos erradas, sobretudo nas do próprio comandante.

Desafio, contudo, pode ser lido como algo além do que mais um romance juvenil de fantasia. Se a narrativa é inteira costurada por metáforas – belíssimas! –, seu conjunto transcende essa figura de linguagem; é, na verdade, uma alegoria de um mundo nem um pouco distante do atual. Há uma passagem, em particular, que ilustra bem essa chave de leitura:

“Um empresário rico em busca de uma nova fonte de combustíveis renováveis comprou terras por todo o globo, contratou equipes e, em um dia infeliz, mandou todos os seus funcionários perfurarem uma camada de rocha metamórfica no fundo da crosta terrestre. Em vez de encontrar uma nova fonte de combustível, as equipes de perfuração encontraram criaturas imensas que soltavam baforadas de fogo e rastreavam as presas pelo som. Enlouquecidas pelo barulho das civilizações que viviam acima deles, ou talvez guiadas simplesmente pelo instinto primitivo de destruir qualquer coisa que pudesse ser capaz de destruí-las, as criaturas subiram à superfície e aniquilaram quilômetros e quilômetros de áreas densamente povoadas a cada vez que surgiam, vindas das profundezas da Terra.”

Explicação fantástica para a origem do Maldito ou representação alegórica de quão malditos podem ser os jogos de ganância e poder?

Batalhas e políticas à parte, o ápice do romance, porém, é mesmo o relacionamento de Rachel e Logan, a ponto os momentos mais interessantes só acontecerem quando estão juntos (nem as dificuldades que cada um enfrenta sozinho na tentativa de salvar o outro – e que são bastante duras! – compensam a ansiedade de passar mais rápido pelos capítulos em que eles estão distantes ou a vontade de saltar direto para o reencontro).

Todavia, há de se esperar, nos próximos, que o casalzinho tenha dificuldades não só na guerra, mas também no amor. Afinal, o felizes para sempre só tem graça mesmo quando vem acompanhado de FIM. Até lá, sigo em doce e angustiante expectativa pelo lançamento de Deception, o segundo volume da trilogia, no Brasil.

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