HomeMúsica, Livros e HQsLivros e HQsMea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

340x650_ariano-suassuna_1432704Na história bíblica da criação do mundo, Deus fez tudo em seis dias e descansou no sétimo. Não sei se é daí que vem a tradição de guardar luto por um morto durante esse período e celebrá-lo no sétimo – o que também está na Bíblica –, mas tem lógica, não? Seis dias para criar a vida, seis dias para deixá-la desfazer-se, transfigurar-se, transformar-se (em outra vida ou em lembranças, a depender da crença – ou falta de – de cada um). Mas o descanso está lá, aos sete dias, talvez para quem vai, mas principalmente para quem fica.

Passado o choque da dor inicial (inicial sim, porque a dor, em si, nunca passa) e os sete primeiros dias de luto – completados nesta terça-feira, 29 de julho – preciso fazer uma confissão: fui eu que matei Ariano Suassuna. Como???, vocês perguntarão em total assombro. E só me restará responder que não sei. Só sei que foi assim:

O fato é que após a morte de João Ubaldo Ribeiro, seguido de perto por Rubem Alves, aqui em casa nos pusemos a fazer prognósticos. O que havia de comum entre eles e qual seria o terceiro a ser levado pela mesma coincidência. À exceção da labuta com as letras, não achamos nada que os igualasse. João Ubaldo ficou conhecido pelos romances, entre os quais se destaca Viva o povo brasileiro – e pela coluna de política nos jornais (a qual, inclusive, tornou-o muito criticado pela esquerda no fim da vida). Rubem Alves, por sua parte, tornou-se famoso pelos textos teológicos e filosóficos, dos quais foram extraídos pensamentos e quase-aforismos intensamente propagados, por sua delicadeza, nas redes sociais.

Sem encontrar a coincidência qualitativa (e esse adjetivo, aqui, nada tem a ver com qualidade), buscamos a quantitativa. João Ubaldo faleceu aos 73 anos; Rubem Alves, aos 80. Se a diferença de sete anos – o mesmo sete bíblico da criação, do luto, da servidão de Jacó, da fartura e da fome previstas por José no Egito, das sete trombetas tocadas por sete anjos no Apocalipse…  – se mantivesse, o próximo visitado pela desdita teria 87 anos. Imediatamente nos lembramos de proteger Veríssimo (ainda e ironicamente com 77) e o outro Rubem, o Fonseca (ufa, 89, já passou!). Não sei explicar porque nos lembramos dos dois, mas foi só deles que lembramos e depois deixamos as contas para lá. Ariano, com seus 87 anos, foi esquecido.

Não sou uma pessoa mística nem creio que minhas palavras, ditas numa hora de brincadeira infame, possam criar um vaticínio tão poderoso assim. Mas matei Ariano justamente por não ter me lembrado. E, por sua contribuição à literatura brasileira, ele não pode ser esquecido. Nenhum deles pode. No entanto, contribuo para matá-los, aos três, quando admito que não li nenhum de seus livros, limitando-me apenas a saber deles mal e porcamente pelo cinema, pelos textos no jornal, pelas frases disseminadas no Facebook. Não tenho orgulho disso, mas é esta a minha confissão. Posso prometer somente que passarei os próximos sete dias, ou sete anos, ou sete vida tentando me redimir.

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