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Em Meus Pensamentos| LITERATURA

Em Meus Pensamentos

Não sei precisar a data do início do fenômeno, mas é certo que tem havido certa invasão dos romances de banca de revista nas grandes editoras. Essas revistinhas de nome de mulher com imagem de um casal (ou só do bonitão da vez) na capa fazem parte do meu imaginário desde que me entendo por gente. Explico: minha mãe era leitora voraz das açucaradas historinhas e, quando eu era criança, convivia com o abajur aceso à noite (dormia na cama dela no intervalo entre a separação do meu primeiro pai e o casamento com o segundo) enquanto ela se distraía antes de dormir.

Quando eu já era adolescente, a frequência da leitura não era mais a mesma (afinal, não havia mais porque descontar frustrações românticas reais nas páginas), mas, ainda assim, os tais romances eram a companhia preferida dela na areia da praia, nas férias de verão, enquanto eu ficava no mar até enrugar. Só que, curiosidade aguçada, acabei resolvendo ver por mim mesma o que podia haver de tão interessante ali.

Essa fase ficou lá mesmo, na adolescência, e não é sem estranheza que vejo o gênero típico das bancas, costumeiramente impresso, inclusive, em papel-jornal, agora repaginado, com roupagem sofisticada de boa edição – embora com as mesmas capas mostrando o casal enamorado ou o ogro lindo e másculo (seja caubói, magnata, rico empresário ou até príncipe, mas quase sempre ogro) – e a mesma mistura de melado com essência de pimenta (de cheiro, porque malagueta seria um pouquinho demais).

Essas lembranças infanto-juvenis foram despertas pela leitura de Em meus pensamentos, oitavo romance da série Os Sullivans, da escritora americana Bella Andre (embora, na minha total desinformação, eu só tenha percebido tratar-se de uma série já quase no epílogo). Terminantemente proibida para diabéticas, a história conta o envolvimento entre a bailarina Lori Sullivan e o caubói (não disse???) Grayson, ambos traumatizados pelo passado: ela, pelo relacionamento nocivo com um parceiro de dança interesseiro e infiel; ele, pela morte da mulher alcoólatra num acidente de automóvel.

Acontece o que sempre acontece nesse tipo de história: os dois sentem uma atração avassaladora desde a primeira vez em que se veem (a ponto de terem pensamentos libidinosos um sobre o outro o tempo inteiro), tentam resistir, desistem de tentar e, enfim, entregam-se a um amor maior que o mundo (…e foram felizes para sempre).

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Sendo assim, o que faz de Bella Andre o sucesso que ele é, best-seller no New York Times (mais um!), traduzida para nove línguas (segundo a orelha do livro), criadora de uma imensa família cujos membros se envolvem, um a um (a série já tem 11 romances nos Estados Unidos), em histórias de paixão que sempre acabam com a descoberta de que encontraram o grande amor de sua vida?

Tenho várias teorias e precisaria ser socióloga, antropóloga ou psicóloga para comprová-las. Como “comunicóloga” não conta, vou apenas dar uma de palpiteira, como é afeito aos jornalistas. Em meus pensamentos é uma doce (dulcíssima, aliás) história de amor, mas é também um romance levemente erótico (pelo que pesquisei, toda a série é assim), com cenas que talvez corem as mais pudicas, mas que certamente não atingem o nível do mais famoso expoente do gênero, a trilogia dos cinquenta tons. Por um lado, isso rende pontos ao movimento feminista, visto que a sexualidade feminina é tratada com naturalidade, inclusive com a tomada de iniciativa. Numa sociedade ainda machista ao extremo, isso tem seu aspecto positivo e permite, claro, tanto a identificação quanto a idealização das mulheres – aí talvez se explique em parte o sucesso de vendas (a outra parte se justifica pelo gosto universal e atemporal por histórias de amor).

No entanto, há o outro lado: o da estereotipia. Tanto a mocinha quanto seu herói romântico são geralmente lindos, a atração é, na maioria das vezes, imediata e incontrolável (com o narrador onisciente sempre fazendo questão de descrever o quanto um tem vontade de pular sobre o outro todas as vezes em que se encontram, mesmo ainda sendo completamente estranhos), ambos sempre descobrem que suas relações anteriores foram meros ensaios para a final, que será para sempre.

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Nada contra os amores para sempre; pelo contrário, sou totalmente a favor e desejo isso tanto qualquer pessoa, leitora ou não. O que pesa é que, a despeito das tentativas de mostrar personagens marcados por conflitos anteriores, dores e traumas, os protagonistas deste tipo de narrativa costumam ser tão planos quanto uma folha de papel. No caso de Em meus pensamentos, eles só vêm embrulhadinhos como papel de bala, dessas com muito açúcar.

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