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ANTES DE DORMIR | LITERATURA

Antes de Domir
Antes de Domir

O filósofo francês Henri Bergson, em seu Matéria e memória, escreveu uma das maiores obras sobre essa capacidade humana de armazenar (ou não) recordações. Nela, o pensador propôs os conceitos de memória hábito e memória lembrança para diferenciar, de um lado, a resposta automática determinada pelo hábito social e pela repetição e, de outro, o poder de ultrapassar as determinações do hábito e fazer da memória um fator de consciência.

Todos os dias nos levantamos da cama e repetimos as mesmas ações, sem que precisemos, diariamente, reaprender a andar, falar, trocar o pijama ou escovar os dentes. Isso faz parte do hábito. Mas como precisar reaprender todos os dias não os hábitos, mas aquilo que somos? Sentir dia a dia as mesmas dores, como se fosse a primeira?

É esse, de certa forma, o tema de Antes de dormir, de S.J. Watson, publicado no Brasil pela editora Record e adaptado para o cinema, com Nicole Kidman, Colin Firth e Mark Strong no elenco. Na trama, Christine Lucas acorda, todas as manhãs, com seus hábitos intactos. Levanta-se da cama (que não sabe de quem é), vai ao banheiro, olha-se no espelho e… não se reconhece. Porque não tem lembranças. Repetidamente, a cada ciclo solar, o homem que dorme ao seu lado precisa lhe contar que se chama Ben, que é seu marido e que um acidente misterioso a deixou nessa condição, incapaz de reter memórias por mais um dia. Como a protagonista resume:

“É como morrer todos os dias. Sem parar… Preciso melhorar. Não consigo me imaginar seguindo desse jeito por muito tempo. Eu sei que voou dormir esta noite e que amanhã irei acordar novamente sem saber de nada, e o mesmo no dia seguinte, e no dia depois dele, para sempre. Não consogo imaginar isso. Não consigo enfrentar isso. Isso não é vida, é apenas uma existência, saltar de um momento para outro sem ter ideia do passado, nem planos para o futuro. É como penso que deve ser a vida dos animais. O pior é que eu nem mesmo sei o que eu não sei. Pode haver muitas coisas aguardando para me ferir. Coisas sobre as quais jamais sonhei.”

Escondida do marido, que lhe é um estranho, Christine descobre, todos os dias, que está se consultando com um médico, Dr. Nash, que a incentiva a registrar num diário tudo o que ocorre quando está acordada. É assim, relendo sua história uma vez após outra como se fosse a primeira, que ela passa a encaixar aos poucos as peças do quebra-cabeça: o filho cuja existência foi completamente apagada das fotos espalhadas pela casa e que o marido nega terem tido; a melhor amiga que desapareceu tal qual suas lembranças, a sensação de que os fatos que desencadearam sua enfermidade não são bem o que lhe contam.

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Antes de dormir é um excelente thriller psicológico que explora não só o fascínio exercido pela memória (e, portanto, pelo esquecimento, porque não existe um sem o outro), mas também a paranoia. Como leitores, ficamos paranoicos juntamente com Christine, uma vez que só temos acesso, na narrativa em primeira pessoa, a suas próprias e parcas recordações. Por que Ben mente? Para lhe proteger da dor extrema de enfrentar as mesmas verdades brutais todos os dias como se fossem inéditas? Ou por que há algo a esconder?

Certamente, um livro para guardar na lembrança. Ou para esquecer e ler de novo e de novo e de novo, como se fosse a primeira vez.

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