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PHILOMENA – OSCAR 2014

Philomena
Philomena

O que faz de um filme baseado em fatos reais interessantes é a capacidade de criar um universo totalmente independente das tais realidades. Sim, tem de se conectar em corpo e alma com os fatos, mas com vida própria, liberdade poética de adaptação. O caso de Philomena é um dos casos que seria interessante sob qualquer parâmetro pois carrega uma singularidade exata, que poderia ser imaginada como história real mesmo sem ser, tanto pelo hipnotismo sensível que nos entrega, quanto pela atuação exuberante de Miss Dench. Carrega consigo, como em grande maioria dos baseados em acontecimentos reais, um “quê” de piegas sim, mas que se rende ao humor inglês refinado e a segurança absoluta de seu diretor. E claro, a história é incrível!

Philomena Lee (Judi Dench, brilhante) teve seu filho arrancado de seus braços quando morava em um convento na Irlanda. O pequeno Anthony é adotado por uma família americana, e depois de 50 anos de silêncio, ela resolve reaver sua história e tentar encontrar seu filho. Porém, sem pistas, perde as esperanças. Contudo, quando o arrogante Martin Sixsmith (Steven Coogan) cruza seu caminho, em busca de uma boa história que possa reerguer sua carreira de jornalista, ela volta a sonhar com o dia que abraçará o filho mais uma vez. Essa viagem dará aos dois mais do que a expiação de seus fantasmas, será um reencontro com sua própria personalidade, um aprendizado mútuo e o nascimento de uma bela amizade.

O grande trunfo de Philomena, além de sua qualidade narrativa fascinante, é o humor fino, todavia negro, que ora subverte termos sociais e outras evoca a dualidade da crença cristã. Muito mesmo pelo que toca Coogan, que assina o roteiro ao lado de Jeff Pope, já que trouxe sua veia cômica para história, com potencial para a melancolia. Os textos ásperos, por parte de Martin, e sensíveis que saíam de Philomena, são o que nos tira do lugar-comum. O embate entre os dois personagens centrais, por conta da crença, não absolve o texto, aliás, nunca o filme desbanca para aquele vai e volta chato, onde os protagonistas ficam de birra, para reatar para um empreitada final. O conto proposto é linear, a busca é o foco, mas incrivelmente nada se torna o lead, aquilo que o espectador tem de se ater acima de tudo, deixando a compreensão do filme fácil e saborosa.

Essa falta de ponto de referência obriga a Stephen Freas a inventar algo diferente do que o fez notável tanto em dramas fortes (Ligações Perigosas, 88), amenos (A Rainha, 2006) quanto em comédias cortantes (Os Imorais, 90). Sua câmera é intrusa, acompanha os personagens a todo o tempo e quase não sobra tempo para contemplações, pois gosta do diálogo, gosta de valorizar o texto, com ou sem falas. Só que ao contrário dos citados, Freas criou um meio termo em sua cadência. O longa flutua entre a comédia, mas recusa a acelerar, porém não fica naquela lentidão dramática que aos poucos provoca enfado. O desenrolar da história não fica forçando o público a aguardar uma busca interminável, tanto os roteiristas quanto o diretor nos entrega todas as resoluções ao seu tempo, sem rodeios. Nos deixa à mercê da dupla troca dos protagonistas, onde nenhum dos dois tem aquela mudança de comportamento de praxe, mas de alguma forma nos deixa com a certeza de algo os engrandeceu.

Contudo, não tem como fazer qualquer análise do filme sem passar pela genialidade de Judi Dench. Sua atuação é irretocável, de uma doçura contagiante, ao mesmo tempo que não nos deixa esquecer que se trata de uma mulher sofrida, que se culpa, mas somente a ela, e ainda mantém a fé naquilo que, de certa forma, a privou do convívio do filho. Essa contradição é exaltada pelo cínico Martin de Coogan (bem em cena), mas Dench não se rende ao apelo maniqueísta que a situação induz, e sua Philomena se mantém absoluta. Não é possível de maneira alguma enxergar qualquer outra personagem que tenha interpretado, o que não seria estranho que por alguma virada inesperada arrancasse o Oscar quase certo de Cate Blanchett.

Esta história incrível e verídica de Philomena hipnotiza, e não só por se tratar de um sofrimento humano tão desleal e injusto, mas também por ser uma trama que seria irresistível mesmo ficcional. Um trabalho sensato, sem exageros, sem induções, apenas um conto de uma pessoa comum, de uma busca incomum, mas de uma singularidade pouco vista ultimamente. Imperdível.

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