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NEBRASKA – OSCAR 2014

Nebraska
Nebraska

Há muito mais na comédia dramática Road movie de Alexander Payne que olhos desatentos podem ver. Porém, não é nada de complicado de se entender, como sempre acontece em seus filmes, já que se trata de situações corriqueiras, estreladas por “seres humanos”, quase um documentário com alto teor estilístico e sem graça. Entretanto, essa condição em uma ficção o eleva à categoria de obra-prima existencial, onde as relações familiares, em especial a de pai e filho, são discutidas de forma singela, ornada com um humor categórico, marca registrada de seu diretor. Poderia ser interessante em um velho bêbado em busca de um prêmio que todos sabem que não é real? Payne prova que sim. Da melhor forma possível.

Quando Woody Grant (Bruce Dern, ótimo) recebe uma correspondência que sugere que receberá o prêmio de um milhão de dólares, ele não pensa duas vezes e decide ir buscá-lo em Lincoln, cidade do estado de Nebraska. Porém, sua família tenta a todo modo impedi-lo, o que se mostra inútil. David (Will Forte), seu filho mais novo, decide ajudar o pai o levando em busca de seu milhão. No meio do caminho, os dois se juntam à matriarca Kate (June Aquibb, inesquecível) e o outro irmão Ross (Bob Odenkirk), e visitam a cidade natal deles, onde histórias são reveladas, a família se manifesta e os laços afetuosos ganham mais intensidade e significado.

O roteiro escrito por Bob Nelson é uma daquelas viagens sentimentais que engrandecem a alma de qualquer um que passe 114 minutos frente ao filme. Não há nada que funcione como chamariz para história, apenas a premissa da figura frágil de Woody, enaltecida pela atuação estupenda de Bruce Dern. No enlace com seu filho mais novo, uma espécie de “herdeiro” da personalidade do pai cria uma mística intensa, com aquele alívio cômico que só Payne parece ter o conhecimento exato para executar. A reunião familiar dos Grant é simplesmente incrível, pois mostra que o tempo destrói tudo, menos o amor fraternal, aquele que pode ser satisfeito com a simples presença do ente querido. Mesmo que nada de relevante seja dito.

Mesmo que as mazelas, presente nas melhores e piores famílias, como os fantasmas do passado, parentes ambiciosos e a melancolia inevitável, se faça presente, há um otimismo implícito que não nos deixa cair em aborrecimento. Aos poucos percebemos que as motivações de Woody, que parecem insanas, são na verdade um modo de compensação por sua ausência na vida de sua família. Nas revelações, sempre sarcásticas e impiedosas de Kate, em um show particular da octogenária Squibb, o anti-herói, velho e bêbado, se eleva a um mito, alguém que sofreu com uma infância difícil, uma guerra e escolhas erradas, por simplesmente acreditar no que as pessoas falam.

Os diálogos lentos, quase raros, são bem aproveitados pela incrível capacidade de Alexander Payne em conduzir tudo de forma realista, sem ser teatral, porém mantendo a verdade em todas as cenas, até nas improváveis. Essa forma como se intromete na vida de seus personagens, que os direciona a um busca, que sempre se revela um pano de fundo para algo edificante, chega a um ponto de equilíbrio máximo. É como se recortasse todos os triunfos de suas obras anteriores recentes e imprimisse na realidade sem cor da família Grant, com Phedon Papamichael (Diretor de fotografia) direcionando o olhar do público para o que realmente interessa: a simplicidade da vida.

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No fim, há sim um prêmio. Não é o milhão! Como não foi o perdão que Schmidt esperava (As Confissões de Schmidt, 2002), o vinho perfeito ansiado por Miles (Sideways, 2004) e muitos menos as terras para Matt (Os Descendentes, 2011). É o significado de sua existência, o amor, a alegria, o viver que muitas vezes são deixados de lados por bobagens sistêmicas. É como se Payne tivesse a intenção de fragmentar seu estudo de caso sobre a existência humana, que vem sendo completada pouco a pouco, desde sua estreia em Ruth em Questão (96).

Contudo, cinéfilos vão ficar temerosos com a possibilidade de Alexander Payne ter chegado ao seu ápice e finalizar seu estudo do ser humano, já que este Nebraska já é sua obra máxima. Mas, todo mundo sabe que ninguém jamais chegará a uma conclusão exata sobre nossa existência. Ótimo, assim teremos a inteligência do diretor a nossos serviços, e como de praxe, deleitando nossos olhos.

Classificação:
Excelente

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