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GAROTA EXEMPLAR | CRÍTICA

Garota Exemplar
Garota Exemplar

Nos últimos 20 anos, David Fincher se tornou sinônimo de competência cinematográfica, com filmes impactantes, tanto no conteúdo textual quanto no visual, que esculpiu dois dos grandes cult movie dos anos 90, o hipnótico Seven – Os Sete Crimes Capitais (95) e o extraordinário Clube da Luta (99). Nos anos 2000 começou a desenvolver uma nova modalidade de cinema, com montagem subjetiva e trilha sonora insinuante, chegando ao excepcional A Rede Social (10), onde atingiu o ápice de seu estilo em um filme que se tornou um marco no cinema americano contemporâneo. O sucesso se repetiu com a adaptação de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (12). E agora, com Garota Exemplar prova que é o cara do momento, que sabe utilizar da modernidade no áudio, no visual e na forma de contar grandes histórias de seres humanos comuns e incomuns.

Quando Amy Dunne (Rosamund Pike, excelente) desaparece em pleno aniversário de casamento, todas as evidências levam a crer que o culpado é seu marido, Nick Dunne (Ben Affleck). Para piorar, o acontecimento ganha proporções midiáticas, já que a moça inspirou uma famosa personagem da literatura infanto-juvenil. Em um verdadeiro show de reviravoltas interessantes, nada parece ser o que parece, e a cada minuto, a cada revelação o público em colocado em xeque: matou ou não matou?

A grande questão de Garota Exemplar era: o que poderá fazer David Fincher para conseguir surpreender o público? Sim, pois a expectativa em torno do filme era justamente pela fama que o livro carrega. Talvez pelo fato de ser o próprio autor da obra original o responsável pela adaptação, o roteiro se tornou um primor, com um equilíbrio inteligente de suspense e drama, com pitadas essenciais de humor sutil. Além disso, é pautado no mundo atual, da instantaneidade, da rede social, do espetaculoso. Daí vem a identificação do público com os casos famosos de assassinatos, sequestros, de Brunos e Nardonis.

Mas é aí que o longa surpreende. Ele não vem simplesmente segurar o espectador e concentrar-se no “quem matou”, Gillian Flynn consegue jogar a estrutura do livro na tela, com as mudanças de tons dramáticos, e que não faz rodeios em revelar o ponto central da trama. Desenvolve um estudo de comportamento entre homem-mulher, além de estender as nuances para a desconstrução da psique de um sociopata. Tudo isso, sem perder o foco, não dando margem a determinismos, é uma narrativa de percepção totalmente subjetiva, impessoal, ficando a cargo de quem vê a interpretação ideal, mesmo que seja consensual com a maioria.

E é à partir da oportunidade de relegar a percepção à terceira pessoa é que David Fincher introduz sua arte magistral em temas e cinema contemporâneo. Com sua equipe técnica, com a mesma formação desde A Rede Social, estabilizou um padrão semiótico de cinema contemporâneo, onde desafia o público com uma montagem elíptica, que transita pelo passado e o presente sem que necessite demarcar tempo e espaço, e por mais que o longa conte com legendas que indiquem o ponto de intersecção da história, muitas das passagens são abruptas. É como se o diretor impusesse o exercício da atenção. E, ao invés de se tornar algo presunçoso, que force até quebrar a atenção, a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross atua como um mediador de emoções, combinando notas singelas voltadas para o clássico, com o pesado e metálico com que eleva a tensão de tempos em tempos.

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Rosamund Pike aproveitou muito bem a grande oportunidade que teve como protagonista de David Fincher. Tanto o texto quanto trabalho incrível do diretor lhe dão a chance de explorar todas as possibilidades que a Amy Exemplar propicia. A transformação que vamos acompanhando na personalidade da protagonista contribuem de forma determinante para que o desfecho inesperado se torne memorável. Desde já nome forte para o circuito de premiações que se iniciam em dezembro. Affleck também pode ser aplaudido, pois se sai bem e evita que seja totalmente engolido pela bela loura.

E é nessa new wave contemporânea, que ainda pode ser incluído nomes como Christopher Nolan e David O. Russell, que David Fincher vai fazendo história e se tornando respeitado. Na composição de narrativa subliminar, na interação impessoal com o público e na condução de histórias de seres humanos com mundo de hoje. É uma nova linguagem que se cria, onde filmes de arte pura se passam por cinemão hollywoodiano. Mas não se enganem, é obra-prima, mais uma de um diretor revolucionário, ou melhor, exemplar.

Classificação:
Excelente

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