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64218Muito se esperava de Êxodo – Deuses e Reis por um simples detalhes: Ridley Scott. O experiente diretor sabe como poucos condensar a ação juntamente com o apelo dramático de forma que nenhum se sobressaia sobre o outro. Porém, ainda que o filme tenha conseguido quase 300 milhões de dólares nos cinemas mundo à fora, muita gente sentiu falta de um maior zelo (ou respeito como mais fervorosos dizem) de Scott com os textos sagrados e principalmente com as formas como “humanizou” as questões ligadas aos milagres e às pragas. Porém, polêmicas à parte, somos brindados com um épico competente que faz jus a fama do diretor. E assim, agora o filme também está disponível em DVD e Blu-ray.

Moisés (Christian Bale) foi criado como filho pelo faraó Seti (John Turturro), apesar de ser seu sobrinho. Ele é invejado pelo filho do faraó, Ramsés (Joel Edgerton), que percebe que o pai tem um apreço maior pelo meio-irmão do que por ele. Quando Moisés descobre, através de um ancião hebreu (Ben Kingsley) descobre que ele na verdade é descendente do povo que ele ajuda a escravizar, vai atrás da verdade, que também é descoberta pelo agora faraó Ramsés, que o expulsa. Depois de algum tempo vagando pelo deserto e estabelecer sua família, ele é incumbido por Deus a voltar ao Egito, libertar seu povo e conduzi-los à Terra Prometida. Mas,como sabemos, não será tão fácil.

Como fazer um filme em que a história cansou de ser exibida, tanto na TV, quanto no cinema? Scott responde sem palavras, apenas com uma adaptação que consegue ser fiel à base dos textos bíblicos, como não poderia deixar de ser, porém conseguindo dar um espaço maior ao fator humano, com todos os conflitos de personalidade que qualquer um pode gerar. O trio de roteiristas, encabeçado pelo excelente Steve Zaillian, fazem exatamente o que sugere o título: dividem os fatos entre as ações dos reis, em que prevalecem as insurreições dos escravos e as atrocidades ambiciosas do faraó Ramsés, e a parte em que os deuses, em que o sobrenatural se intromete, em especial na passagem das dez pragas (que inclusive é muito bem amarrada para que tudo não soe forçado).

A base narrativa não segue o padrão de transcrição enfadonho do megalomaníaco Os Dez Mandamentos (1957) dirigido pelo mitológico Cecil B. De Mille, ainda que o longa de quase quatro horas tenha tido seus méritos, respeita demais os textos sagrados e enfraquece a linguagem cinematográfica. Através da fotografia Dariusz Wolski, que tem sido colaborador frequente de Scott, conseguimos acompanhar um filme obscuro, em que pode-se sentir uma tensão claustrofóbica crescente, e ainda a claridade fosca sugere que algo está errado. Mesmo a figura de Deus, encarnado por um menino, é uma presença dualizada e interessante, pois está disposto a pagar crueldade com crueldade.

Porém, o diretor mostra habilidade em conciliar história e ação para a composição do épico. As cenas de batalha, que são justamente justificadas por ser Moisés um guerreiro, e não um bastardo mimado (como vimos em O Príncipe do Egito, 98), que tem a obrigação de comandar os exércitos do faraó e, posteriormente, de Deus. Mas, essa habilidade em valorizar a ação pode ser também o fator que provoca algum desconforto, principalmente no momento de transição do filme e da inclinação ideológica do protagonista. Mesmo que a intenção fosse focar em ver Moisés libertar seu povo, a edição poderia ter valorizado mais sua convivência com a esposa e o filho, pois está ali as raízes de sua mudança. Tudo parece muito acelerado, quase um flashback.

Christian Bale mostra que é um dos grandes atores da atualidade ao saber resguardar a humanidade de seu Moisés, pois em suas expressões pode-se sentir a insegurança em acreditar em algo que só ele vê e ouve. Seria mesmo um dom ou insanidade? Já Joel Edgerton compõe o personagem mais interessante da história com certa facilidade. O Ramsés não é mau simplesmente por ser, ele age segundo suas crenças, o que torna essa dicotomia mais difícil de ser absorvida, pois, a maioria do público, não sabe como é acreditar no que ele acredita. Mesmo cometendo barbáries, mostra-se amorosos com o filho e a esposa.

E nesta condição de ser humano em meio a uma discussão de real ou sobrenatural, o talento de Ridley Scott se sobrepõe. Talvez poderia ter sido mais “sagrado”, ou mais “cético”, o certo mesmo é que novamente o diretor nos passou exatamente o que pretendeu. Um épico bem produzido e com ação de alta qualidade. Agora, se é certo ou errado, desrespeitoso ou não, isso depende da crença de cada um. Seria interessante saber separar as coisas, pois não só o cinema e sua liberdade poética agradeceriam, o mundo como um todo também.