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SET: CINEMA E VÍDEO | KINOS

Para a criança cinéfila dos anos 1980 e 1990, Cahiers du cinéma era um nome distante e desimportante perto do que poderia oferecer um exemplar da revista Set. Publicação mensal sobre cinema e vídeo, teve lugar cativo nas bancas e nas mãos dos leitores aficcionados por cinema durante mais de duas décadas e foi a grande referência de muitos jovens do período. Lembro, inclusive, do primeiro exemplar que tive em casa e que foi fotografado pra acompanhar este texto. O primeiro que folheei na banca some da lembrança, mas foi a capa com A dama e o vagabundo que permitiu ao pequeno levar a revista pra casa. Lembro, inclusive, de ter ido ver o filme anos depois (e já contei isso aqui) numa matinê pela manhã vestindo preto, em protesto contra o governo Collor, que acabou sofrendo impeachment. Parece que foi ontem…

SET: CINEMA E VÍDEO | KINOS

Esta edição, de julho de 1989, é a n°24 de uma publicação que durou de 1987 até 2010. Além da imagem principal da capa, duas outras trazem marcos do período que até hoje ocupam lugar de destaque nos sites de cinema. Sean Connery e Harrison Ford divulgavam o fechamento da trilogia de Indiana Jones com A última cruzada em uma entrevista. Quatro aventuras de James Bond chegavam às locadoras e a parte mais importante dessa publicação se deve a isso: uma tabela com todos os títulos do agente secreto realizados até aquele dia. Ainda hoje, quando penso em rever tudo de 007 (plano que nunca se concretiza) minha referência pra consulta passa longe dos sites mais atualizados: o primeiro pensamento vai pra esta tabela, que para em Permissão para matar.

Mesmo com a capa de desenho animado, a revista mostrava de tudo o que acontecia no cinema e nas locadoras. Tudo mesmo. Tinha sempre uma sessão de lançamentos que incluía a categoria de filmes eróticos, cujas capas e fotos eram suficientes pra fazer com que a revista não pudesse ficar na sala, por pudor da criança que a lia. E tantas capas, como a da edição 100, foram tentações pros ainda proibidos Proposta indecente ou Corpo em evidência, com Sharon Stone e Madonna, respectivamente. Mesmo não podendo ver os filmes, as matérias eram lidas e o conteúdo conhecido, o que ajudou a formar o espectador pra quando essas barreiras fossem derrubadas, algumas na marra.

Como ocorreu com O silêncio dos inocentes, cuja censura ainda impedia a ida ao cinema. Foi oriental a paciência até que ele surgisse na locadora. Em um passeio com o irmão e dois primos pra bombonière e pra locadora, escolhi um infantil e levei Hannibal Lecter. Enquanto a casa dormia, no dia seguinte, acordei cedo e assisti, fascinado, à investigação de Clarice Starling, que valeu muitos Oscars ao filme e um enorme puxão de orelha na hora do almoço, mas dali em diante as portas dos filmes de gente grande haviam sido abertas (as portas, sim; a cortina no canto da locadora, ainda não).

Por um ano, minha madrinha assinou a revista e depois foi a minha vez, quando meu pai me presenteou com a assinatura numa bienal do livro, no Rio de Janeiro, e ainda ganhei uma camisa da revista, que usava com muito orgulho, porque aquilo dizia que eu conhecia cinema. Entre lançamentos pop e filmografias de grandes talentos do cinema, a revista tinha espaço pros iniciantes e pros marcos da história da sétima arte, pros famosos do momento e pros famosos de sempre. Havia uma sessão de cartas, mais efetiva forma de interação com os leitores naquele tempo e colunas opinativas, em que, como aqui, o autor podia escrever o que quisesse, sem seguir um padrão focado num filme ou num artista: alguns textos eram até difíceis acompanhar pro cinéfilo de Sessão da Tarde.

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As matérias especiais, que geralmente ganhavam a capa, eram as que faziam o melhor pra educação cinematográfica do leitor, porque não se contentavam em falar do filme em cartaz no cinema ou recém-chegado às locadoras. Eram textos que dialogavam obras e autores, por vezes focados em um longa, em outros casos com um tema mais abrangente e chegando a fazer lista de must see ao final do texto. Eram reportagens que mostravam como o cinema se alimenta de si e de outras artes, como dialoga com seu tempo sem esquecer seu passado (como faz hoje La La Land em tempos de um mundo que pede envolvimento político ou alienação). A revista também tinha espaço pros periféricos que dialogavam com o cinema, diretamente ou apenas como troca de linguagens, como a TV, os games e as trilhas sonoras.

Outras revistas vieram depois de Set, algumas ainda podem ser encontradas nas bancas, mas o ritmo de circulação de hoje, atrelado ao perfil de leitura do público brasileiro, não as deixa ter a força ou o destaque que havia mais de uma década atrás, cabendo aos sites fazer o que grandes revistas fizeram antes de Set, como A cena muda, de quando a publicação durava mais na boca do povo do que os filmes que anunciava.

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