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O PILOTO DÁ AS CARTAS | KINOS

House of Cards
House of Cards

Quando ouvimos Lester Burnham se apresentar e dizer, enquanto a câmera sobrevoava um conjunto de casas, que aquela era sua vizinhança e que em menos de um ano ele estaria morto, fomos fisgados para fazer parte de um dos melhores filmes que Hollywood foi capaz de produzir nos últimos anos. Mais que isso: uma das interpretações mais marcantes e de Oscar justo na última década. Um irretocável Kevin Spacey, até então conhecido pelo aleijado de Os suspeitos ou por um dentre os inúmeros e confusos personagens de L.A. Confidential, papou as estatuetas de cinema e teatro no mesmo ano.

Depois de Beleza americana, Spacey tinha o dilema com o qual se depara a maioria dos consagrados: seguir fazendo mais do mesmo ou retirar-se de cena. Optou pelo segundo caminho e foi fazer teatro em Londres, onde trabalhou na direção do Old Vic e aprimorou-se em diversos ramos das artes cênicas, inclusive o palco, ao longo da última década. Entre uma ponta e outra no cinema americano, devotou-se a Dionísio. Que o recompensou.

Tudo o que fizera no cinema até então era apenas estágio para o que viria a mostrar em House of cards.

Antes da primeira imagem, um som de freios, pneus cantando no asfalto, um choque. O carro se vai, mas deixa agonizando na rua o cachorro dos vizinhos, visto por Frank Underwood, personagem de Spacey, mas não pelo público. Enquanto seu secretário chama os vizinhos, Frank vai até o animal e conversa com a audiência sobre dois tipos de dor: a que faz crescer e a que não serve pra nada. Conclui, enquanto sufoca o animal: não suporto o que é inútil. Em apenas um minuto conhecemos o personagem.

A esposa, papel de Robin Wright, conhece o marido e participa de mãos dadas de seu jogo retórico, cuja principal motivação está em, após a eleição do presidente por ele apoiado, ser descartado do cargo que acreditava poder ocupar no novo governo. Voltaria para o congresso, onde seria importante para o presidente, e trabalharia em prol da nova gestão. Ou assim fez com que os aliados pensassem.

No jogo político, até mesmo um olhar serve de pretexto para discussões e, ao bom jogador, a virada de mesa, mesmo quando encurralado, se dá com classe. Como na boa retórica, os dois lados saem ganhando, ou pelo menos saem da mesa acreditando nisso. Quando as costas se viram, e na trama política é nessa posição que os grandes movimentos acontecem, estabelece-se a realidade. Underwood, como seu nome sugere, é o às quando as articulações subterrâneas são necessárias.

Capaz de sorrir com precisão, de olhar nos olhos e transparecer honestidade, o personagem de Spacey transita por três espaços dialógicos. Em seu meio político, conversa com as peças de xadrez como se fosse apenas uma delas, um peão, talvez um cavalo, quando, na verdade, contempla do alto o tabuleiro. Quando vendo de cima, conversa com sua consciência, extensão da qual é a esposa, que sabe até como fazer para que ele quebre seus bloqueios e siga, por vezes antecipando os movimentos do marido como ele faz com os adversários. Também olhando para o tabuleiro, mas sob outra perspectiva, está o espectador, voyeur da narrativa, com quem o personagem conversa desde a primeira cena, por vezes didático, oracular ou gozador.

Além de bons personagens, uma trama complexa e nem por isso confusa, a fotografia sóbria e densa e um elenco que não erra (ou engana bem se o faz), a série conta com um nó de marinheiro para amarrar tudo isso: a direção de David Fincher, de Clube da luta, versão hardcore do mesmo ano que Beleza americana. E tudo isso, caro leitor, diz respeito apenas ao primeiro episódio. Peço licença para terminar este texto aqui para poder ver o segundo.

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