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A ETERNA BELEZA | KINOS

A Grande Beleza
A Grande Beleza

Jap Gambardella escreveu um livro, um único livro, pelo qual é conhecido. A vida não acabou ali, mas sua obra literária se ateve a este sucesso, que leva todo o santo mundo a perguntar: por que não escreveu outro? São trinta anos da pergunta até o ponto em que Paolo Sorrentino escolhe para contar a história do escritor, também influente no mundo da arte, pelo qual faz entrevistas e é consultado sobre os trabalhos mais recentes.

A festa de 65 anos de Jap abre o filme, com toque felliniano que percorre toda a obra (ou quem mais faria o protagonista encontrar uma girafa na frente de sua casa, um apartamento ao lado do Coliseu romano? ou flamingos repousando em sua varanda numa escala da migração?). Enquanto os tunt-tunt-tunt fazem a multidão dançar, atrás de uma vitrine, com lirismo musical, uma mulher parece alheia ao ritmo exterior enquanto faz streap-tease.

Nudez não é tabu na busca pela grande beleza, ainda mais quando compõe uma obra de arte conceitual. A mulher nua (Talia Concept) é envolta por um véu, ergue-se para mostrar o púbis pintado de vermelho e marcado com uma foice e um martelo, corre em direção a um muro e bate a cabeça. Ao ser entrevistada por Jap, ela se esquiva com frases enigmáticas das perguntas que, no íntimo, querem pedir explicações.

Jap vive como muitos jovens gostariam, e de uma mulher sai a resposta perfeita à pergunta “você vive de quê”: sou rica. Ele trabalha, mas parece mais divertir-se do que outra coisa, embora sua angústia seja palpável a cada diálogo ou mostra artística que visita. Há mesmo momentos em que sua franqueza em relação aos outros trazem à lembrança O declínio do império americano, com o tipo de diálogo que só entre amigos é possível não haver tiros.

Neste carpe diem (ou carpe noctes), a idade mostra a Jap que não deve perder tempo com o que não gostaria de fazer, e sente-se velho, como alguns amigos também o fazem. O que é ser velho em Roma, a Cidade Eterna? Uma cidade que conta nas ruas, nas igrejas, nos museus a história da arte ocidental, e o faz com intimidade ao mostrar que tudo aquilo está ali porque é ali que deveria estar. É neste meio que circula a preocupação do homem que busca algo que não sabe onde está.

Mulheres não lhe faltam, como pessoas que o conhecem pelas ruas, e a ânsia por algo sincero faz parte de sua procura. Enquanto uma companheira experimenta o vestido para ir a um velório, ele descreve como se portar durante o ritual, explicando como agir, o que falar, o que se pode ou não fazer. E diante do caixão ele segue seu próprio manual, metódico, até perder-se pela emoção. Ou diante da menina obrigada pelos pais a expor seus dons artísticos a curadores de diversas galerias (dons, aliás, de fazer Pollock invejar): enquanto a menina chora a lançar tinta sobre uma tela (ele responde à companheira: claro que ela não está chorando, ganha milhões), ele busca pela beleza maior da arte nas obras guardadas há séculos pelos palacetes de Roma (no saguão de um dos quais a velha princesa joga baralho com as amigas).

Desde seu primeiro e único livro, Jap busca a grande beleza, e por trinta anos percorre as mostras de tudo o que há de novo, do que é moda. A moda, e muitas estações mostraram isso, nem sempre é bela. A beleza não deixa de ser beleza porque torna-se velha, como o tempo não apaga o que há de belo antes. Diante da morte do primeiro amor, contada pelo marido, Jap se vê diante da dúvida: por que ela me deixou? E ao olhar em volta, talvez se pergunte por que as pessoas não o deixam também, já que é apenas mais um aparato humano naquela fauna que torna a escrita de um novo livro algo tão dispensável.

O que é a arte de hoje? E pra quem ela existe? O quanto se deve deixar vivo neste mundo em que, inevitavelmente, tudo acaba na morte? Quanto resta de Roma, ou do passado, e quanto é sufocado pelo presente? Se boa parte disso não passa de um truque, que Jap começou a descobrir aos 65 anos, quem sou eu para contestar? Aliás, pergunta-se ele como perguntou-se Bretton no início de um livro: quem sou eu?

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