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DE ARONOFSKY AO OSCAR | KINOS

Bastidores de Noé
Bastidores de Noé

Pela segunda vez um filme de Daren Aronofsky antecedeu o vencedor do Oscar. Trata-se de uma cronologia pessoal, uma constatação de vida, até este ponto nada além disso. Em 2011, após ver Cisne negro, mudei de sala para a assistir O discurso do rei, com a sensação de que não conseguiria prestar atenção no que o rei teria a me dizer, do mesmo modo que mal cumprimentei um colega que me parou na entrada do cinema. Este ano, após ver Noé, fui correndo para a sala ao lado viver 12 anos de escravidão, programado para começar no mesmo minuto em que os créditos bíblicos subiam na tela. Saí antes das palavras mostrarem quem estava por trás do milagres e tão longo entrei na outra sala, luzes já apagadas, vi novamente cenas do dilúvio no trailer. Dos fatos às impressões:

Cisne negro é uma das obras primas do cinema, um balé grandiloquente nas mãos do diretor que tem sua ópera maior em Réquiem para um sonho, e que não perde a mão ao tornar a doce Natalie Portman em seu cisne invejoso. Exercício de psicologia, as relações entre eus e outros se mostra nos egos espalhados nas salas de ensaio, na casa, nos vidros do trem frequentado diariamente. Se mostra na outra bailarina da companhia, laboratório para que o distante cisne sombrio deixe claro estar mais perto de cada cisne branco do que possa parecer. Se Portman não tinha muita proximidade com o resto do elenco, e o papel pedia isso, sua presença em cena penetra o espectador com cada olhar para si mesma lançado à câmera, por trás da qual encara-a o diretor.

Se ela entra a golpe de Tchaikovski no público, o rei precisa aprender a lutar com as palavras e o microfone, e um quase sempre estupendo Geoffrey Rush conduz Colin Firth à capacidade de falar com o povo e com a plateia do cinema. Sem os grandes arroubos de Cisne, mas com uma sutileza inglesa, O discurso do rei pode não ser fácil para o protagonista, mas chega sem problemas à plateia e isso o coloca em destaque para a estatueta dourada da Academia. A primeira cena diz tudo e as horas seguintes mostram como desenrolar aquele lead conhecido e previsível, mas nem por isso descartável.

Alguns anos depois,  Aronofsky volta à telona e a sequência se repete, desta vez depois da premiação. Noé é um dos personagens mais divertidos da Bíblia, e seu alcoolismo é lição para muitos que chegaram ao sucesso: fez a arca e pode encher a cara? Isso, no entanto, fica para poucos minutos no final, já que a história da arca e o fanatismo com relação ao criador movem o personagem em todos os segundos. Tudo em demasia faz mal, e deus faz parte do ditado, pois uma história que tinha tudo para ser boa fica na mão de um personagem chato; não o original, mas aquele ali. Mais uma vez Russell Crowe faz um gladiador para si mesmo. O resto do elenco, coitado, tem que girar em torno dele, e o único que consegue mais destaque é o anjo decaído feito digitalmente, pois nem Anthony Hopkins sai muito da inércia do Matusalém. Boa a história da humanidade contada no meio do filme, bem rápida e com edição característica do diretor, que repete, com o compositor Clint Mansell, acordes da trilha de Réquiem. Pior filme de Aronofsky, mas nem por isso ruim.

Pelo ganhador do Oscar não dava nada, talvez até por isso, mas como no filme anterior, tem-se influências importantes do diretor e do ator: do primeiro, como antes, com contribuições, do segundo, diferente do filme anterior, com uma sensibilidade tocante sem que a câmera precise sequer se mover. Uma das últimas cenas, para representar uma passagem de tempo, mostra o Chiwetel Ejiofor parado, com o céu ao fundo e seu olhar para o horizonte. Pronto, só isso, e fica difícil de piscar diante da cena. Ou quando ele, na carroça, olha para frente, tudo o que está atrás é que importa, e o público não sabe para onde olhar. Um bom filme, também com cara de Oscar e com uma boa lição de cinema.

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1 COMENTÁRIO

  1. Um comparativo interessante. Aronofsky é um grande nome do cinema atual que faz algo dele e só dele, gostem ou não de seu psicodélico Hip-hop montage. Não vi Noé, não tenho a posição de comparar, mas provavelmente fez algo dele, bom ou ruim, dele, o que é bom, e demais.

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