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ACONTECEU NAQUELA NOITE? | KINOS

Apenas uma noiteSeria um bom título para o filme em questão e assim mesmo, com a interrogação, mas os admiradores de Frank Capra, Clark Gable ou Claudette Colbert talvez não gostassem da comparação com a quase desconhecida diretora iraniana Massy Tedjedin ou com o quarteto de Last night, traduzido como Apenas uma noite. O título em português também traz a dúvida: apenas? Mas a ausência de interrogação deixa a dúvida sutil, como a história apresentada ao espectador.

Um resumo simplório do filme seria: casal discute relação durante a noite, se resolve e ele viaja a trabalho com aquela que motivou o debate, enquanto a esposa fica em casa e acaba encontrando um antigo caso pré-casamento. O leitor talvez se culpe por fazer a pergunta óbvia: quem trai quem? Pode se acalmar, pois é justamente essa a questão que mantém a atenção durante cada um dos 93 minutos de diálogos entre quatro personagens intrigantes.

O casal é composto por Joanna, uma Keira Knightley tão à vontade no papel que mesmo nos momentos em que a personagem se encontra insegura ela representa com verdade essa insegurança, e Michael, um Sam Worthington que começa sem muito brilho ao lado da esposa e cresce junto com a tensão que se desenvolve com a viagem. Numa festa de trabalho, ela não perde de vista uma Laura, colega do marido para a qual ele dedica gestos que a esposa considera demasiados. Em casa, sob goles do vinho bebido desde a festa, a conversa a faz dormir no sofá, para onde ele vai no meio da noite e termina o debate, deixando-os em harmonia.

Por falar em casa e harmonia, que cozinha tem o casal. Se desfazer o casamento significasse abandonar aquela cozinha, discutir relação deveria ser algo proibitivo por ali. Aplauso pra cenografia, que além de encantar o espectador atento, permitiu mobilidade dos atores e da técnica num ambiente claro e arejado, como parece ser a relação entre dos personagens, que optam por colocar impedimentos.

No dia seguinte, Michael viaja com Laura enquanto Joanna fica em casa, trabalhando em seu livro. Numa saída, esbarra em Alex, um Guillaume Canet tão à vontade quanto Keira Knightley, o que engrandece a relação. Na verdade, esbarra num Alex que propositadamente queria ser esbarrado, francês em um único dia de trabalho em Nova York. Saem para jantar com amigos dele enquanto a Laura de Eva Mendes, um esboço constante de dúvida, ciente de que é alvo de atenção de ambos do casal, chama Michael para um drink depois do dia de trabalho.

Assim chegamos aos quatro ciclos em que é construída a narrativa, numa estrutura capaz de agradar Syd Field. O primeiro ciclo é o que apresenta o problema principal: o casamento que pode não ser tão estável. Como um bom ciclo, começa e termina em casa com os protagonistas, mas passa por conversas no taxi e pelos acontecimentos da festa. Nada é abrupto, uma ou outra cena apresenta claramente a situação, mas não faz com que as demais sejam desconsideradas, principalmente porque a direção, ao adequar tudo, conduz o modo de se encarar a situação. Casal começa bem, encontra conflito e resolve conflito.

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Outros dois ciclos são paralelos e se iniciam e terminam do mesmo modo: movimento de Michael, no início para longe, depois para perto. Do momento em que o casal se desfaz até o retorno, cada um encontra seu antagonista e vive situações de tensão que são sentidas pelo público, o tempo todo percebendo cada gesto, fala, olhar como um sinal de maior aproximação para algo. Quando o movimento de um par se torna claro, o corte volta a olhar para o outro. Não é um ir e vir de livro do Dan Brown; cada cena tem o tom necessário e o tempo certo para situar, envolver e deixar no ar as pulsações do público, sem que ele lamente ter mudado o olhar naquele momento. A montagem é tão consciente do que pede a trama que nem o claro predomínio de interpretação do casal que está em Nova York impede que as trocas entre situações sejam bem dosadas.

No final, o último ciclo, quando Michael volta da viagem. Cada um dos personagem sabe o que aconteceu naquela noite, mas sabe de si. A única testemunha de tudo é o espectador, que julga desde o início e chega ao final com todos os fatos nas mãos. Exceto um, o último, um derradeiro instante, um olhar e basta para que a tela preta deixe tudo no ar, num dos melhores finais que Hollywood já mostrou.

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