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1 PODE SER 2 | KINOS

Incêndios
Incêndios

Incêndios é uma peça escrita por Wadji Mouawad, dramaturgo e diretor teatral libanês que vive no Canadá desde os anos 1980. Incêndios é um filme franco-canadense dirigido por Denis Villeneuve, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011, quando ficou de mãos dadas na coluna dos perdedores com Biutiful, de Alejandro González Iñárritu (venceu o dinamarquês In a better world). Li a peça algumas semanas atrás e ela queimava as tentativas de formar palavras para Bebida Cultural. Ela e Aderbal Freire-Filho, que dirigiu Marieta Severo na montagem em cartaz no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, e que solda com primor o presente do texto e a história do teatro nas orelhas da publicação da editora Cobogó. Depois de ver o filme, ampliada a vontade de escrever sobre a história, Kinos foi o espaço escolhido.

Como convém às adaptações, levar um texto para o palco ou para a tela requer escolhas, da produção ao roteiro, da direção à atuação. O filme é o reflexo das boas opções a que recorreu a equipe, a começar pela fotografia, de uma limpeza capaz de tornar nítidos os movimentos a meia luz ou uma caminhada com lanternas durante a noite, na qual uma delas mostra o caminho e a outra, em contra-luz, o balde dentro do qual existe a razão da caminhada. Cartelas vermelhas que contextualizam algumas mudanças de tempo e espaço chegam a incomodar no início, como um narrador desnecessário para a história com personagens de tamanha complexidade, mas explicam-se pela última delas, mais uma boa seleção.

Dos personagens, filhos de Mouawad e do elenco da primeira montagem, com o qual dialogava antes de escrever, pouco se pode dizer sem antecipar momentos da história. São personagens cujas características fazem de suas vidas etapas da narrativa, mesmo quando eles ainda não estão presentes, como nos momentos da juventude da mãe, Nawal, que desencadeia toda a trama. Morta, deixa em seu testamento duas cartas, e pede que os filhos, um casal de gêmeos, entreguem uma ao pai e outra ao irmão deles. O pedido vem após cinco anos de silêncio da mãe, que calou-se num instante, sem explicações. A filha, Jeanne, mais sensível, quer saber as razões; o filho, Simon, cansou de buscá-las. Da curiosidade matemática de Jeanne começa a busca, ignorada por Simon, pelo passado da família, pelo som a ocupar os anos de quietude da mãe.

Se Nawal está morta no início do filme, a conhecemos em fragmentos de sua vida passada, em que o espaço visitado por Jeanne leva ao tempo em que a mãe passou por lá. Um filme de durações, como as considera Henri Bergson, em que a relação com o espaço é ontológica e se dá com o tempo, construindo durações heterogêneas, como ocorre em diversas formas de narrativa. Dos encontros amorosos de Nawal com Wahab, o amor da juventude, importa apenas o filho que ela carrega no ventre e a vergonha que isso leva para a família: isso é mostrado no filme, nada além. Quando Jeanne chega à mesma cidade, passa pelo que parece ser o mesmo aclive em que os dois foram descobertos, mas a cena é rápida, para reconhecimento e só, pois a história precisa continuar. As histórias, ainda fragmentos.

Os momentos afastados no tempo se mostram parte de um presente que precisa ser explicado, e nada como a água para apagar o fogo. É com ela, em uma piscina, que a família parece ter seus momentos, quando mãe e filha vão se divertir, quando irmão e irmã nadam juntos. Do ventre que dividiram à relação forte que mantém quando nadam extrai-se a intensidade de uma história que vem de outros tempos, e que surpreende até a última linha do texto, como deixa sem ar no filme, em cena impactante dos irmãos.

Aproveito a confessa incapacidade de terminar este texto melhor que Aderbal Freire-Filho para recorrer às palavras do diretor: “Wadji Mouawad afasta-se do teatro burguês para voltar ao lugar do teatro antigo, valendo-se de uma dramaturgia quatro vezes viva: épica, dramática, presente, eterna. E arma ainda outro quadrado: aqui estão o espaço “aberto”, o teatro social, o túmulo mal fechado e uma força catártica rara.” O filme não deixa por menos.

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